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“Disseste que ia haver Dragões…” Diz-me ele enquanto fecho a porta do carro.

“E há. Devem estar escondidos.”

Ele olha-me desconfiado.

“Vês aquelas árvores a abanar lá ao fundo?” Aponto. Ele espreme os olhos na direcção do meu dedo. “Deve ter-se escondido quando ouviu o nosso carro.”

“Os Dragões não têm medo de carros.”

Ouvimos um ladrar e vemos o nosso Bulldog Inglês sair disparado à nossa frente.

“E o Artur não tem medo de Dragões. A sorte dele é que se pode esconder no meio das flores.”

“Não lhe servia de nada…” Explica-me ele. Às vezes, acho que um filho não tem maior prazer que o de explicar porque é que o pai não percebe qualquer coisa. “O Dragão consegue cheirá-lo. Mesmo se estiver muito longe.”

Faço um ar preocupado e coço o meu queixo.

“Então não nos devíamos ter aproximado tanto…” Digo. “Toda a gente sabe que aquele monte está cheio Dragões.”

Indeciso entre o alarme e a curiosidade, olha-me de boca entreaberta, a piscar os olhos.

“Artur!” Lembra-se de repente. “Não te afastes tanto. ” O cão não lhe liga nenhuma. Está demasiado ocupado a mastigar ervas rasteiras. “Queres ser almoço de Dragão?”

O cão parece que faz de propósito e enfia-se pelas ervas dentro.

“Artur!” Grito eu.

Perdemo-lo num mar de flores amarelas empoleiradas em caules que a passagem do cão sacode.

“Onde é que ele vai?” O meu filho está pronto para se lançar atrás dele. “Vamos buscá-lo.”

Ponho-lhe uma mão no ombro e olho em todas as direções.

“Espera. Ouviste isto?”

“O quê?!” Pergunta ele em sobressalto.

“Não ouviste? Foi um Dragão a rosnar, tenho a certeza.”

Ele esbugalha os olhos.

“Vamos buscar o Artur, rápido.”

Eu digo que não, enquanto coço a cabeça à procura de uma solução.

“É muito perigoso.” Explico-lhe. “Vou ligar o carro. Se um Dragão aparecer estamos prontos para fugir. Continua a chamar por ele.”

Dou a volta ao carro e abro a porta do condutor. Atrás de mim, o meu filho chama pelo Artur, primeiro assustado, depois zangado. Como nada resulta, experimenta uma súplica, mas o Artur está demasiado entretido algures naquela mata.

Sento-me dentro do carro e rodo a chave na ignição. Faço força suficiente para o motor tossir, mas não que chegue para pegar. Repito o gesto mais três vezes e salto de novo para fora do carro enquanto ele ainda chama pelo Artur.

“O carro não pega.” Grito-lhe.

“Hã?! Fizeste tudo bem?”

Digo-lhe que sim.

“Tens a certeza?”

“Absoluta. E o Artur, onde está?”

“Não sei…” Diz ele com um encolher de ombros.De repente estremece. “Ouviste?”

“Ouvi. Acho que o Dragão se está a aproximar.”

A cabeça dele roda de um lado para o outro procurando sinais do monstro.

“Precisamos de um plano. Não podemos deixar o Artur aqui.” Diz-me.

Eu volto a dar mais um volta à chave do carro.

“Tens alguma ideia?” Pergunto.

Ele morde o lábio por um segundo.

“As sandes do almoço. Atira-me uma.” Diz-me ele.

Largo a ignição e corro para a mala. Afasto sacos-cama, colchonetes e uma tenda. Lá debaixo está uma mala térmica cheia de garrafas de sumo, pacotes de leite e uma pilha de sandes embrulhadas em papel alumínio. Pego numa ao calhas e lanço-a ao meu filho, que a desembrulha num só golpe.

“Esta é de queijo.” Diz-me ele. “Arranja uma de fiambre.”

Coço a cabeça.

“Eu sei lá quais são as de fiambre…” A mãe dele ter-se-ia lembrado de criar um código de cores.

“Abre mais sandes!.” Exaspera-se ele. “Queres salvar o Artur ou não?”

“Tens razão.” Digo, e começo a rasgar sandes atrás de sandes. Transformo a mala numa chacina de tiras de alumínio, fatias de queijo e metades de pão a derramar geleia de morango.

“Haha!” Ergo, vitorioso, um punho fechado à volta de um pão. “Toma. Fiambre, como pediste. Da perna extra.”

Ele pega no pão e olha-me confuso.

“Extra quê?” Pergunta-me.

Encolho os ombros.

“Também nunca percebi.”

Descontente com a resposta, ele retira as fatias de fiambre da sandes e ergue-as.

“Que estás a fazer?!” Grito-lhe.

“O Artur adora fiambre.” Explica ele. “Vais ver como aparece num instante.”

“E os Dragões?! Disseste que eles conseguem cheirar tudo…”

Os olhos dele abrem-se tanto que fico com medo que saltem cá para fora.

“Vai ligar o carro, rápido!” Ordena-me.

Corro de volta ao lugar do condutor. Atrás de mim, o meu filho chama, frenético.

“Artur! Artur!”

Faço o carro tossir outra vez.

“Artur!” Chamo também. Mais uma volta à chave. “Não pega…”

Olho pela janela de trás e vejo o meu filho engolir em seco.

“Acho que ouvi o Dragão levantar voo.” Diz-me ele com ar assustado.

“Volta a chamar, rápido!” Digo-lhe enquanto dou outra volta à chave.

Ele obedece e nesse instante, o nosso Bulldog reaparece por entre as flores. Traz o ar relaxado de quem terminou algo importante e saltita alegremente até nós, com a língua a sacudir à sua frente.

“Artur!” Grita o meu filho, vitorioso.

Decido rodar a chave outra vez, mas desta feita até ao fim. O motor solta um rugido e o carro estremece.

“Pegou!” Festejo.

Salto até ao meu filho, que agarra no Artur com um sorriso de orelha a orelha, e pego-lhes ao colo.

“Rápido, vamos!” Diz ele.

“Estás a ouvir o Dragão?” Pergunto.

“Acho que já levantou voo. Vem atrás de nós.”

“Não nos vai apanhar.” Garanto-lhe.

A cadeira de rodas dele ficou para trás. Corro até ela, solto o pino de desmontagem e dobro-a em x.

“Rápido, pai!” Grita-me ele de dentro do carro.

“Estou a ir.” Respondo enquanto atiro a cadeira para dentro da mala.

Não arrumo nada. Fecho-a e atiro-me para o lugar do condutor. Esmago o acelerador e deixo a minha porta fechar com o arranque. Ele ri-se, lá atrás, deliciado.

“Foi por pouco…” Pisco-lhe o olho pelo retrovisor. “E agora, onde vamos?”

“A um castelo!” Responde ele espremendo o Artur por entre os braços.

“Hmmmm” Murmuro.

“Um castelo de um feiticeiro.”

“Ah! Já sei.” Digo-lhe. “Conheço um aqui perto.”

  • Imagem: Vasco Fernandes Thomaz
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  • Apareceu a 22 janeiro de 1982. Durante a sua vida escolar, andou desaparecido, reaparecendo mais tarde como estagiário na Young&Rubicam. Por ali fez a última campanha da Telecel, fez Danone, trabalhou Land Rover e ajudou a Fundação Portuguesa de Cardiologia. Em 2003, apareceu novamente, com o aparecimento da MSTF Partners. Desde então, trabalha contas como MEO, BPI, Federação Portuguesa de Cardiologia, SportTV, revista Sábado, Santa Casa, Turismo de Portugal, entre muitas outras.

    Ao longo deste caminho, foram aparecendo alguns prémios, tais como o do Clube de Criativos, Cresta de Nova York, Eurobest, El Ojo, e um Leão de Ouro. Em 2006, foi representar Portugal em Cannes como jovem criativo. Mas foi como criativo da Partners que conquistou um Leão de Ouro nesse ano. Apareceu também como júri em alguns festivais, como o Eurobest, CCP e Art Directors Club of Europe.

    Estima muito a família e os amigos e gostava que eles nunca desaparecessem.

    Dizem muitas vezes que é parecido com o seu cão. É ele que aparece nesta foto.

  • Palavras: Vasco Cardoso
  • VRCARDOSOB&W
  • Lembro-me de escrever pequenas estórias no Mac SE30 do meu pai. Ele depois imprimia algumas cópias no escritório para eu distribuir pela minha turma. Estava ainda na escola primária e basicamente copiava tudo o que lia ou via na TV. Lembro-me de ter um herói que era estranhamente parecido com o Indiana Jones, só que o nome dele vinha da capa de um dos livros na prateleira atrás do computador.

    Cresci com uma saudável dieta à base de romances de fantasia, jogos de computador e sonhar acordado. Depois de me licenciar em Gestão, passei uns anos a atirar headlines, scripts e ideias tontas cá para fora, numa agência de publicidade em Lisboa. Tendo escrito sobre praticamente tudo, desde laxantes a seguro automóvel, decidi que estava na altura de começar a escrever sobre aquilo que me dá mais gozo. Por isso, hoje dedico-me a auto-publicar os meus trabalhos de ficção, quase todos no género Fantasia.

    Também como muitos crepes.