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Era uma vez um tempo em que começar assim uma história era original. Mas ele não tem essa sorte. “Escrever mil palavras sobre uma fotografia? Não pode ser assim tão difícil.”, pensou ele quando o professor do curso de escrita criativa lhe passou o trabalho de casa. E agora aqui está, computador emprestado à frente, um galão e dois cafés bebidos e mil palavras por escrever.

Para o que lhe havia de dar depois de velho. Ele, que nunca escreveu duas linhas na vida, meteu agora na cabeça que queria ser escritor. Ou antes, que queria escrever um livro. O que, parecendo que sim, não é a mesma coisa. Quer escrever, mas não lhe interessa o que vão pensar daquilo que escrever. Ou até se interessa, mas não nos adiantemos na história. E não é essa a razão por que quer escrever.

Quer escrever porque um dia acordou com essa ideia. Porque não? Se tanta gente escreve livros, porque não podia escrever um também? Isso foi, pelo menos, o que disse ao António da loja de electrodomésticos, quando lhe perguntou se não lhe sabia dizer onde podia arranjar um computador. “Então, quer ir à internet?” “Não, quero escrever um livro.” “Um livro? E não quer antes uma máquina de escrever?” “Não, com um computador posso escrever onde me apetecer.”

Já lhe tinha dado para coisas piores. No dia em que se reformou, decidiu deixar crescer o cabelo e não fazer mais a barba. Porque podia. Porque depois de quarenta anos a trabalhar para o doutor Lopes agora não tinha mais ordem nenhuma a que obedecer senão às que a sua própria cabeça lhe ordenasse.

Depois de quarenta anos como escriturário na fábrica de óculos, quarenta anos atrás daquela secretária, quarenta anos de nariz enfiado naqueles papéis, quarenta anos a acordar às 7:15, a apanhar o comboio das 8:14 em Algés, sair no Cais do Sodré, caminhar até à Rua da Madalena, sair do escritório às 13:00 para ir almoçar à Casa de Pasto da Sé, regressar ao escritório às 14:00, sair às 18:00, caminhar até ao Cais do Sodré e apanhar o comboio das 18:31 para Algés, podia agora acordar às horas que lhe apetecesse e fazer o que lhe desse na gana.

Não que acordasse mais tarde (há mudanças para as quais é tarde demais). Mas não cortava o cabelo. Nem fazia a barba.

E agora tinha decidido escrever. Inscreveu-se num curso de escrita criativa que viu numa notícia no jornal e que lhe pareceu uma boa maneira de se iniciar na tarefa a que se propunha. “É capaz de ser melhor, só para ter umas luzes e saber por onde começar.”

O António lá lhe arranjou um computador, “era da minha filha, ela comprou um novo e tinha lá este em casa”, e agora aqui está ele, debruçado sobre o computador que era da filha do António, com uma fotografia de um gato e um documento de word em branco à sua frente.

Olha em volta. Este parecia-lhe um bom lugar, tão bom como outro qualquer pelo menos, para escrever sobre um gato. Agora já não tem tanta certeza. Se calhar mais valia ter ficado em casa, sozinho. Entre o rapaz atrás de si a falar ao telemóvel e os miúdos a jogar à bola na relva, como é que vai conseguir escrever alguma coisa? Diz que não se consegue concentrar. Ou então isso é apenas uma desculpa para a imaculada página à sua frente.

“É fundamental um começo forte”, disse-lhe o professor do curso de escrita criativa. E ele pensa “como é que se começa forte um texto sobre uma porra dum gato?” O raio do curso de escrita criativa já não lhe parece uma maneira assim tão boa de se iniciar na tarefa a que se propôs. Passa-lhe pela cabeça não voltar a aparecer por lá, mas depois pensa que ainda iam achar que tinha morrido e ainda mandavam alguém lá a casa para saber dele. Só que escrever sobre uma porra dum gato é a última coisa que quer fazer.

Porque aquilo que ele não disse ao António é que não foi apenas naquele dia que acordou com a ideia de escrever. Há muitos dias que o pensamento se deitava e acordava com ele. E o que também não lhe disse foi que não quer apenas escrever um livro. Não um livro qualquer, pelo menos. Porque livros é o que mais há por aí. Não, ele quer escrever um livro a sério.

Ele, que toda a vida foi registar, documentar e arquivar, olha para trás e vê uma vida sem nada a registar, nada a documentar, nada que mereça arquivo. E não é assim que quer ir embora. Não quer ir sem fazer algo. Sem ter algo de que se orgulhar.

Depois, pouco lhe importa que ninguém leia o que escrever. Não pretende que mais alguém leia o que escrever. Só quer saber que conseguiu. A satisfação de uma obra feita. Isso basta-lhe.

Por isso, quando o acabar, vai mostrá-lo ao senhor Gonçalo. O senhor Gonçalo era cliente da fábrica de óculos e disseram-lhe que era um grande escritor, que até acordava de madrugada só para escrever. E como ele não conhece mais ninguém que escreva livros, vai pedir-lhe que leia o seu, quando o terminar. Não sabe se o senhor Gonçalo quererá ler o seu livro, mas acredita que quando lhe explicar, ele não vai recusar. Acha que ele vai entender. Quer apenas que ele leia o seu livro e lhe diga se conseguiu. Depois pode queimá-lo, metê-lo no lixo, rasgá-lo, fazer o que entender com o dito, não quer saber. Porque não quer ser escritor. Quer apenas escrever um livro. E ir-se sabendo que o escreveu.

“Não é tarde demais.” E então aqui está, computador que era da filha do António à frente, um galão e dois cafés bebidos, a imagem do felino a olhar para ele e um livro para escrever. “Olhe, era mais um café, se faz favor.”

O início.

  • Imagem: Tiago Tomé
  • Tiago Tomé
  • Tiago Miguel Leitão da Silva Tomé, nasceu em Viseu onde foi criado e educado até à maioridade.
    Tirou o curso de Design Gráfico e Publicidade no Porto. Daí mudou-se para Lisboa onde aperfeiçoou os seus skills na Restart com o curso de Criatividade Publicitária. Começou a carreira pela BBDO, seguindo-se a EuroRSCG. Desde então tem trabalhado como freelancer para agências como a Mccann, Fuel, Havas, BBDO, etc. Tiago tem ainda o terrível hábito de escrever as suas biografias na terceira pessoa.

  • Palavras: Márcio Martins
  • Márcio Martins
  • Márcio Martins nasceu em Lisboa em 1979.
    Aprendeu a ler e a escrever aos 3 anos.
    Dos 6 aos 14 anos, jogou basquetebol na SIMECQ.
    Aos 15, viajou à boleia pela Europa e aos 16, inspirado pela viagem, escreveu o seu primeiro romance.
    Entre os 18 e os 22, tirou a licenciatura de Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa.
    Aos 23 anos, publicou o primeiro romance, “A Grande Arte”.
    Aos 24, tirou o curso de Criatividade Publicitária na Restart e aos 25, começou a trabalhar como redactor publicitário.
    Aos 26, ganhou os Young Lions e representou Portugal em Cannes, e aos 27, salvou uma velhinha da morte certa ao desviá-la de um automóvel desgovernado.
    Já trabalhou na EURO RSCG, Brandia, Publicis, McCann, BBDO, Fuel, Wieden+Kennedy Amesterdão e AKQA San Francisco.
    Actualmente, trabalha na Fullsix Portugal.
    É autor do SeteVinteCinco, o blogue português da NBA.
    Já escreveu banda-desenhada, curta-metragens, poesia, ensaio e crítica musical.
    Tem a certeza que metade disto é verdade.