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Parabéns Guita!

Foi a última coisa que se lembra de dizer antes do acidente.
Na verdade, a frase até foi mal proferida, o que ele queria mesmo dizer era “Parabéns Rita”… mas o idioma não era o dele e por isso os r’s não lhe saiam como era suposto.
Tal como não era suposto aquele turista, o Gustavo, estar a tirar fotos e a filmar naquele sítio. Mas o raio do português queria fazer um filme para o aniversário da namorada, a Rita. E por isso, a intenção era filmar o máximo de pessoas que se cruzassem na sua viagem a dizerem “Parabéns Rita.”
A ideia era boa, ao contrário da ideia de entrar num estaleiro.
Uma viga de betão mal presa e deu-se o acidente.
O turista não resistiu e morreu.
Quem teve que resistir àquele cenário macabro foi Malik, que apenas quis ser atencioso e levar o turista dali para fora.
Mas foi atencioso demais, cedeu ao pedido de dizer umas palavras para a câmara e tornou-se o protagonista da última foto de Gustavo.

 

9 de Abril de 2014, 4 dias antes do acidente.

Gustavo está no quarto de casa a preparar a mala para ir viajar com amigos.

Rita, a sua namorada, está na sala a ver a novela completamente amuada.

“É uma viagem de gajos, eles também não vão levar as namoradas”, foi a desculpa que Gustavo deu para não ter convidado Rita, mas na verdade, ele estava a precisar de férias dela também e foi ele próprio que deu a ideia de irem só rapazes.

Aquela relação já não estava bem há demasiado tempo e nenhum dos dois fazia um esforço muito grande por mantê-la. As discussões eram cada vez maiores, principalmente nos últimos cinco anos. Mas quando se tem trinta e cinco anos e os amigos já estão quase todos casados, é mais fácil conformar-se que acabar uma relação de doze.
A Rita ainda se travou de razões e tentou usar o trunfo do seu aniversário, mas Gustavo já tinha combinado tudo e estava determinado a fazer aquela viagem com os amigos.
Não era uma viagem qualquer. Era uma viagem de mota pela Índia.
Vinte e cinco dias de adrenalina e aventuras únicas.

Aniversários da Rita há todos os anos.

 

10 de Abril de 2014, 3 dias antes do acidente.

Malik está no quarto a fazer as malas para sair de casa e mudar de vida.
Shivani, a sua mulher, está na sala a ver a novela completamente amuada.
A relação não foi desejada, foi planeada. Normalmente é o suficiente para que as coisas resultem naquele país e naquela cultura, mas Malik vivia de uma insatisfação atípica para quem foi criado segundo uma educação tão rígida.

Era suposto conformar-se. Afinal de contas já tinha trinta e cinco anos e já estava casado há mais de doze.
“Eu acho que merecemos os dois muito mais” foi a verdade que Malik deu a Shivani, porque afinal de contas os dois sabiam que aquele casamento era uma mentira.
Maliktinha recebido uma proposta que na visão dele era irrecusável. Era uma proposta de trabalho para um país estrangeiro, longe dos costumes e tradições a que estava habituado. E no fundo, isso era o que ele mais queria.

Nem pensou duas vezes.

Oportunidades destas não há todos os anos.

 

13 de Abril de 2014, umas horas depois do acidente.

Rita recebeu um telefonema de um número estrangeiro.
Do outro lado, a notícia inesperada. Gustavo tinha morrido.
Rita perdeu as forças no joelhos e deixou-se cair. Na sua cabeça voavam pensamentos a mil à hora.
Estava desesperada…

Não, estava triste….

Aliviada….

Aliviada não!

Estava traumatizada….

Estava…
Na verdade, Rita não sabia como estava, nem o que era suposto sentir.

Parecia que já estava preparada para aquilo.

 

13 de Abril de 2014, umas horas depois do acidente.

Shivani recebeu um telefonema de um número desconhecido.
Do outro lado, a notícia inesperada. Malik estava na esquadra.
Shivanisaiu a correr. Pegou no carro do marido e voou a mil à hora para a esquadra.
AparentementeMalik só tinha ido prestar declarações como testemunha, mas como tinha ligado para a mulher o ir buscar, ela ficou esperançada que aquilo fosse um retomar de uma relação perdida.

Quando lá chegou, Malik fez questão lhe explicar o contrário.
Dentro de três dias ele ia embarcar para outro país, para uma nova vida e ela estava desesperada…

Não, estava triste….

Aliviada….

Aliviada não!

Estava traumatizada….

Estava…
Na verdade, Shivani não sabia como estava, nem o que era suposto sentir.

Parecia que já estava preparada para aquilo.

 

18 de Abril de 2014, 5 dias depois acidente.

Malik só estava há três dias em Portugal. Tudo para ele era estranho.
na verdade ainda tinha visto muito pouco, explorado muito pouco.
Só conheceu o novo apartamento onde iria viver, o novo patrão e o seu novo eu.
Malik tinha feito a barba, cortado o cabelo e tinha decido mudar radicalmente a sua história. Estava decidido a ser feliz.
Tal como estava decidido a ir às cerimónias fúnebres de Gustavo.
Quando lá chegou reconheceu algumas caras.

Os amigos que estavam com Gustavo naquele dia e que ele tentara ajudar a sair do estaleiro.
Mas houve uma cara que não reconheceu e no entanto foi a que mais se destacou pela beleza e confiança.

Era Rita, que apesar de triste, encerrava nela a mesma vontade de viver e ser feliz que ele sentia.
Mesmo não sabendo de onde, ela reconheceu o olhar de Malik.
Era o dia do seu aniversário e naquela manhã, quando acordou, decidiu rever as fotografias da máquina de Gustavo.
O tempo que parou a olhar para a fotografia de Malik foi o mesmo tempo que parou quando viu o seu rosto ao vivo.

Não era suposto sentir-se assim com um estranho, sobretudo no dia do funeral do seu namorado.
Mas naquele momento, não haviam suposições que alterassem aquela empatia e Malik aproximou-se de Rita e disse as únicas palavras que tinha aprendido em português.

Parabéns Guita!

  • Imagem: Tiago Cortez
  • Tiago Cortez
  • O João pediu-me para escrever a minha biografia. Eu pedi a alguns amigos para escreverem o meu epitáfio.

    “Aqui jaz um grande Espanhol”
    – Naresh Kulmar

    “Ele era uma pessoa muito especial…vemo-nos no inferno, T.”
    – Leila Katrib

    “Queres odiá-lo mas simplesmente não consegues.”
    – Amin Soltani.

    Se algumas palavras podem resumir a vida de uma pessoa, uma foto pode ligar-nos. Isto é o que acho que a fotografia deve ser, uma ponte entre o observador e a foto.

    Tiago Cortez, criativo no Dubai.

  • Palavras: Diogo Trabuco
  • Diogo Trabuco
  • O meu nome é Diogo Trabuco.
    Quando tinha 6 anos, tinha no olhar a certeza do que queria ser no futuro….
    4º árbitro!
    Haveria coisa melhor no mundo do que assistir a um jogo de futebol tão perto da linha lateral, manter os treinadores na área reservada, levantar a placa dos descontos, levar com isqueiros variados na nuca e ainda receber dinheiro por isso?
    A resposta é sim… há. 
Bailarina de can-can. 
Mas as minhas pernas nunca foram grande coisa e não fico bem de saias rodadas.
E por isso mesmo, tornei-me copywriter.
Faz sentido, não faz?
    Claro que não… 
Tal como não faz sentido várias coisas na minha vida.
Já fui desportista, cientista, arquitecto, actor e mais recentemente… gordo.
Actividade que mantenho com grande orgulho e dedicação.

    Tenho planos para, em breve, me tornar feliz e também para conseguir explicar à minha mãe o que é um copywriter. Cada vez que lhe tento explicar a resposta é sempre a mesma:
    “Copywriter?! oh filho… francamente! Tu devias era ser 4º árbitro como o teu pai!”