V

Quando acordou, sentiu-se, por breves instantes, ainda a voar num sonho. Um segundo de liberdade, suspensão sem limites, sem contacto com o que quer que seja. Só o sonho, o voo e nada mais. É quando aterra no chão que percebe que o voo era uma queda. Há voos assim.
O corpo lembrou-lhe o que era a dor, que lhe asfixiava os joelhos, os braços e a cara. “Agora ainda estás quente, amanhã vai doer mais”, a voz do professor de educação física a invadir-lhe a mente. “Que parvoíce, Maria da Luz”, pensou, o nome de velha a soar-lhe estúpido, agora que ia morrer nova.
Com as mãos tombadas no chão, sentiu a terra debaixo das unhas, os dedos inchados (cada pancada das últimas horas a vir-lhe à mente), as agulhas dos pinheiros. O peito pesado tenta respirar o ar puro, o fresco da noite a transformar-se num frio que lhe alivia as dores.
Quanto tempo tinha ficado na bagageira do carro, encolhida em posição fetal, as articulações a massacrá-la? As mãos atadas, os pés atados, o ruído monótono do motor que a adormeceu quando ela mais queria ficar acordada, lutar. Quantas horas de viagem? Agora só queria que lhe deixassem o corpo onde ele pudesse ser encontrado, que a história não acabasse assim, no meio do nada, longe dos olhares dos que gostavam dela, sem lágrimas, sem flores, sem despedidas.
Tentou ver qualquer coisa, fosse o que fosse, um último registo do Mundo que pudesse levar consigo. “Fizeste asneira, Maria da Luz… isto vai acabar mal para ti. Pode ser que os apanhem.” O que é que interessa se os apanharem? Já não vais estar cá para ver, não vai haver salvamento heroico por um homem que possa ser o teu numa relação baseada em sexo, tipo Keanu Reeves e Sandra Bullock no Speed (“excelentes referências, Maria da Luz, realmente o filme da tua vida é muito bom, palminhas para ti”).
Doem-lhe os olhos quando tenta abri-los, a porcaria da venda que nem de algodão deve ser, até isso a magoa. E como é que uma coisa como os olhos pode doer assim? Vão ficar negros, fechados antes de tempo, já nem nisso manda. “Sic transit gloria mundi”, o latim é a língua dos que vão morrer, “Morituri te salutant”. “És tão mais inteligente quando estás quase a morrer, Maria da Luz.”
Fecha-se novamente a porta do carro, consegue ouvi-la, e a um novo conjunto de passos que se aproxima, o estalar das coisas do chão a cada aterragem da sola. Vem aí mais um enfardamento, que é mesmo o que lhe faz falta, pontapés na cara, que já deve estar que nem a mãe vai identificá-la na morgue. Os homens conversam atrás dela, discutem o que vão fazer, as vozes a falar sem medo de serem ouvidas. “Ah, a tranquilidade de ser assassino numa zona florestal”, pensa. Certamente.
“E agora, o que é que se faz a isto?”, “Fazes tu ou faço eu?”, “Trouxeste a pá? Qual pá?”. “Esta gente não tem organização nenhuma, não há nada mais triste do que ser morta por incompetentes, pareço o país”. Sempre acutilante no comentário político, Maria da Luz, agora e à hora da sua morte, que dizem que vai dar ao mesmo por estes dias.
Ouve um objecto metálico a bater no chão. Deve ser a barra outra vez, vai fazer-lhe mais uma festa no corpo, partir-lhe uma costela (ainda consegue respirar bem, mulher rija, nestes ossos não entra osteoporose). Encolhe-se, os músculos tensos, espera pela pancada, mas nada. “É uma pá. Vais ter direito a sepultura, Maria da Luz, que bom, as pequenas alegrias da Morte são bem mais giras que as da vida.”
Sente-o baixar-se, debruçar-se sobre o seu corpo, a respiração a roçar-lhe a nuca. Está a apertar-lhe mais os pulsos, aos puxões, a cada novo gesto um som da boca, o homem está a fazer força, “Fraquinho, pequeno assassino. Delicada flor, nem a um homem que me mate tenho direito.” Recusa-se a gemer, a pedir, a emitir qualquer som.
Se calhar devia começar a rever a vida, que nestas alturas diz-se gostar sempre de andar para trás, o que faz sentido, porque para a frente já não deve haver grande caminho. Quer fazer as contas com O de Cima, sabe orações mas não lhe parecem fazer sentido. Tudo bem, se Ele é realmente infinitamente bom, não vai levar a mal se Maria da Luz se atrever a um discurso mais informal, tu-cá-tu-lá, eu-cá-Tu-lá-mas-eu-já-vou-aí-ter-Dá-me-um-toque-que-eu-subo. Isto já não está a fazer sentido. Andem lá com isso.
Volta a pensar que só quer ser encontrada. Um desperdício, se este corpo fica perdido, tantas vezes que pensou no bikini e não comeu uns doces, até esteve para tatuar “leave a sexy corpse” mas nunca decidiu onde ao certo. Ainda hoje, precisamente hoje, lhe parece uma boa ideia para uma tatuagem. Tinha boas ideias, ela. “Tinhas. És a primeira pessoa a falar de ti no pretérito. Sempre à frente do teu tempo.”
O gajo debruça-se mais, arranca-lhe a venda, agarra-a pelos cabelos, levanta-lhe a cara do chão. Parece que chegou a hora. “É agora, Maria da Luz. Se queres ver o Mundo é agora.”
Com a cabeça puxada para trás, faz um esforço e tenta abrir os olhos. Ainda inchados, pesados, difíceis de manobrar “Estás mesmo a dar as últimas, Maria da Luz. Velha e numa cama de hospital devia ser bem mais confortável, mas lá bem no fundo deves ter querido ser diferente.”
A posição é perfeita para uma decapitação, uma lâmina que lhe entre na garganta e lentamente lhe percorra o pescoço de um lado ao outro, uma nova boca fora da cara que só vai falar sangue. Não quer, quer um tiro, quer que seja de repente, sem mais avisos.
Abre os olhos. Finalmente, abre os olhos pela última vez. As copas das árvores mal definidas, o Mundo de contornos vagos, sombra, céu e mais nada.
“Que sítio é este?”, lembra-se de pensar. “Aqui nunca me vão encontrar.”

  • Imagem: Tanja Costa
  • Tanja Costa
  • O nome é Tanja e tenho 28 anos. Sou famalicense de nascimento e nortenha de gema.

    Em 2008, depois ter terminado o curso de Design Gráfico e Publicidade no Porto, vim para Lisboa com o objectivo de trabalhar em publicidade. Não como modelo, mas como Directora de Arte.

    Desde aí foi sempre a somar. Noites, copos e amigos. Mas falando em agências, passei pela W/Portugal, Wunderman, JWT e neste momento estou na Nossa™.

    Hoje comi bifes panados ao almoço.

  • Palavras: João Silva
  • João Silva
  • João Silva nasceu a 1982, gosta de favas e de escrever coisas com não mais de cinco linhas. O que aqui podem ler é portanto um exercício de superação, mas o autor espera que não se note muito.