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“Uma máscara é um acessório usado para cobrir o rosto. É utilizada para diversos propósitos, sejam eles lúdicos, religiosos, artísticos ou de natureza prática.”

A definição da palavra máscara refere-se a um objecto físico, mas na verdade todos usamos máscaras diariamente e não precisamos de trabalhar no circo ou sermos assaltantes de bombas de gasolina para as usar. Usamos máscaras porque socialmente não nos é aceite andarmos de cara à mostra sem que nos julguem pelo que não somos, não sentimos ou não fazemos. A sociedade foi construída à volta dessas mesmas máscaras e quem opta por não as usar é considerado maluquinho. Na verdade, é impossível mostrarmo-nos ao mundo exactamente como somos. Se assim fosse, seria impossível mantermos relações amorosas, um emprego que durasse mais de que uma hora, amigos, ou mesmo a família.

Vejamos.

Num blind date:

  • Olá. Sou o Francisco.
  • Rebeca.
  • És cantora pimba?
  • Não… Porquê?
  • Hum?… Nada.
  • Fala-me um pouco de ti, Francisco. O que é que fazes, se tens hobbies, qual o teu signo…
  • Ora, deixa ver…
    Então, tenho 42 anos e estou desempregado porque sou um profissional super incompetente, apesar de um macaco conseguir desempenhar o que me é pretendido fazer. Moro com a minha mãe que se separou do meu pai quando eu fiz 16 anos e ainda não consegui superar a separação. Talvez venham daí os meus graves problemas de relacionamento. Não consigo ter uma relação séria e acabo por trair todas as mulheres com quem namoro. Masturbo-me duas vezes por dia e, quando me venho, choro compulsivamente agarrado a um palhaço de porcelana que o meu pai me ofereceu em criança. No fim, tomo um duche quente e esfrego-me com pedra pomes até sentir que não tenho mais pecados em mim.
    Gosto de acariciar porquinhos da Índia enquanto como bacalhau com natas… e sou do signo Carneiro.
    E tu?
  • Sou Balança. Acho que não vai dar.

Este poderia muito bem ser o cenário de um primeiro encontro sem máscaras. A diferença é que, aqui, o Francisco iria para casa sozinho, e no mundo real está casado, mora num T3 nas Avenidas Novas, tem 2 filhos e uma relação secreta com o Xavier, um rapaz de 19 anos que conheceu à porta do colégio militar.

 

No emprego:

  • Ribeiro, chamei-o aqui ao meu gabinete para lhe falar da conversa que tivemos há uns meses atrás…
  • O aumento.
  • Sim, sim. Isso. Pois. Eu estive a pensar enquanto fingia que falava com a administração e o seu aumento não me dá jeito nenhum nesta altura, sabe? É que saiu agora um Porsche novo e o meu já não grita “crise de meia idade” como gritava quando o comprei, e esta coisa do estar a ficar careca mexe muito com a minha auto-estima. Contudo, considero-o o melhor funcionário que temos na empresa e espero que não fique desmotivado com este pormenorzinho de nada que é o seu salário. Olhe, pense assim: pelo menos não é gordo.

Na realidade, a resposta seria apenas “Estamos em crise.” É simples, actual e eficaz. O chefe sabe que está a mentir, o empregado sabe que o chefe está a mentir, e o chefe sabe que o empregado sabe que ele está a mentir, mas a resposta é aceite e acaba ali a conversa.

 

No casamento:

Por vezes um casal divorcia-se e os amigos ficam incrédulos “Mas como?”, “Eles eram perfeitos um para o outro!”, “Mas davam-se tão bem…”, “Eles pareciam tão apaixonados no Instagram…”

  • O Miguel não veio?
  • Não, já não conseguimos olhar para a cara um do outro. Há 3 anos que ele dorme no sofá e só fazemos amor quando ele faz anos, porque no meu aniversário dispenso coisas tristes. A respiração dele irrita-me e o cheiro que emana já se tornou tão enjoativo que me dá vontade de vomitar. É um inútil sem auto-estima que não consegue tomar uma decisão sem que alguém lhe diga o que fazer. É péssimo na cama e acha que sexo oral é dizer-me coisas porcas ao ouvido.

É mais fácil inventar uma desculpa: “Não pôde. Ele aos Sábados vai a uma instituição ler histórinhas a crianças cegas” ou “Não. Está com diarreia”.

Na verdade, a vergonha de falhar perante os outros é colossal e ninguém quer admitir que o seu relacionamento é uma merda, que escolheu o homem ou a mulher errados, que foi traído, ou que já não consegue lidar com o fetiche do marido por balões ou da mulher por anões culturistas.

 

Duas amigas num provador da Zara:

  • Estas calças slim não me fazem gorda?
  • Não. Tu és gorda. Aliás, ao chamar-te gorda estou a ser simpática. Achas mesmo que podes andar na rua com uma calças slim sem que um cão te ataque porque te confundiu com um paio? Eu sei que estão na moda os rabos grandes, mas amor, o teu parece uma estrada em obras ou a cara do Seal, e quando se diz que “um homem gosta de ter onde agarrar” é só com as duas mãos. A tua respiração ofegante só seria sexy se fosse durante uma sessão de sexo e Miss t-shirt molhada não conta se for com transpiração. Leva antes a saia.

Neste cenário, a gorda ia para casa chorar e enfardar três pacotes de Oreo e a suposta amiga não seria nem “suposta amiga” de ninguém.

 

Hoje em dia, com as redes sociais, é tão mais fácil mascararmo-nos. Atrás de um computador podemos ser quem nós quisermos. Podemos ser bonitos e ricos. Podemos viajar pelo mundo, ter uma casa de férias na praia e um carro topo de gama, uma família numerosa e amigos famosos. Podemos ser divertidos, aventureiros, românticos, opinativos e contestatários. A variedade é infindável. A nossa vida é maioritariamente feita em função da aceitação dos outros. Queremos ser amados e ao mesmo tempo invejados.

Na verdade, todos queremos ser vistos como cisnes, mas não passamos de uns patinhos. E nem nadar sabemos.

  • Imagem: Tânia Fonseca
  • Tânia Fonseca
  • Tânia Fonseca, Criativa/Directora de Arte desde 2006. Nasceu em Lisboa na companhia das suas duas irmãs gémeas. Brincou com bonecas, saltou à corda e fez trinta por uma linha. Entretanto estudou e resolveu ir para o Brasil. Viveu e trabalhou como publicitária no Rio de Janeiro durante um ano até bater aquela saudade e voltar a casa. Gosta de cinema, de viajar e conhecer o mundo, de correr quando tem tempo e de fotografar, principalmente pessoas estranhas a andar de barco. 

  • Palavras: Nádia Pinto
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  • A Nádia sempre foi a palhaça da turma. O seu sonho era ser veterinária ou actriz, mas como para tratar dos animaizinhos tinha de passar a matemática, desistiu da ideia. Chumbou a canto lírico ao tentar entrar no Conservatório Nacional de Teatro e um dia sentada no sofá dos pais a ver televisãopensou: “Ishh… Que merda de anúncio. Consigo fazer melhor.” E conseguiu.

    Para além de publicidade, continuou a fazer teatro, rádio, voluntariado numa associação de cães abandonados e deixou crescer o bigode.

    A Nádia está a falar na terceira pessoa, mas não sabe jogar futebol.