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Em setenta e três anos de idade já passei por muita coisa. Já me conformei e já me revoltei, já me tiraram muitas coisas da mão, já me tiraram muitas vezes o chão e outras tantas a razão. Mas que nunca me tirassem o ar. Esse é o pior furto que se pode fazer. E quem me dera que não se pudesse sequer – que fosse crime punido por bem daqueles como eu. Mas não.

Nunca nada me tirou tanto o ar como a névoa. Essa. Logo essa, onde eu precisava ser no mínimo Deus para a poder superar. Não há sabedoria, nem truques nem nada que possa enganar o tempo. Nem este nem o outro.

Desta janela onde eu estou e vou estando vejo o mesmo de sempre. Mas não me farto – há coisas assim, como esta paisagem, que podem ficar para sempre. Não me farto, nem desisto, nem descarrego as fraquezas dos meus olhos velhos e cansados numa imagem que é tão cheia de tudo. Não são só as árvores, a serra, o céu, as casas e os arbustos. É tudo o que lhes existe no meio, em cima, à volta. Não são só as formas, é o que as rodeia. O anti-corpo confirma o corpo, dá certezas, faz-me acreditar na existência. Esta paisagem muda todos os dias, eu é que não – nem os meus olhos cansados que não lhe reconhecem a mudança, ou os novos traços que ganha. Mas no fundo eu sei – e isso basta-me – que lá porque eu não vejo não quer dizer que não exista. As coisas estão e são no seu lugar, independentemente de eu ser e estar no meu.

Eu estou quase sempre aqui. Alterno entre uma cadeira e uma cama. Neste quarto escuro, com estas paredes baças e este cheiro a velho que eu já não sinto mas que sei que existe – que quando era novo bem me lembro de todos os quartos de velho cheirarem assim. Um cheiro conformado e preguiçoso que veio para ficar, tão intenso que nenhum cheiro novo se evidencia, que nenhuma novidade tem espaço para respirar. E esta janela é das poucas provas que eu tenho de que os dias continuam com a normalidade que os dias têm, é das poucas provas que tenho de que acordei e de que estou vivo. Porque eu sei que lá fora algo muda, e aqui não.

Mas quando vem a névoa.

Quando vem a névoa eu nem sei bem, porque só quero guardar memória do momento em que ela vai embora. Com ela vem a angústia, o sufoco, o desconforto. A névoa vem e acomoda-se no meio das árvores, da serra, do céu, da casa e dos arbustos e em tudo o que lhes existe no meio, em cima, à volta. Acomoda-se e entranha-se, deixando tudo difuso e turvo, sem contraste e sem certeza de que há espaço no meio das coisas. A paisagem perde o contorno.

Não há profundidade, não há importância, não há destaque. Tudo é semelhante, tudo é ténue, insonso e apagado. Não há linhas, nem há formas. E sem formas nem linhas não há opostos que confirmem a existência das coisas. Não se sabe onde se começa e acaba o que quer que seja, é uma sensação de ignorância involuntária e frustrante. Porque eu sei que aí a culpa não é dos meus olhos cansados. Eu esforço-me e tento e nunca vou conseguir – enquanto estiver nesta janela onde vou estando – fazer nada para descobrir certezas naquela imagem entupida de névoa. É uma prisão. Perco a liberdade de interpretar, de conhecer e equacionar, perco a razão e o raciocínio, perco a qualidade de ser humano. É querer decifrar, procurar soluções e a única coisa que encontro são problemas – a cada linha que não se deixa ler.
Abro a janela e não fica mais fácil. Só sinto o frio desta insegurança, as pequenas gotas gélidas que apenas me dizem que esta névoa de facto tem forma e não serve unicamente para deformar o que é bonito. É um mistério estranho, esta névoa. Que faz de tudo o que envolve um mistério ainda maior. Esbate tudo num só plano e não permite ver o fim. E essa impotência que me dá – a mim que não posso ir além desta janela deste quarto escuro – é ingrata. Por mais que tente e me aplique, não vou conseguir furar esta manta de nada que desfigura tudo. Vou ficar aqui neste compasso do batimento cardíaco alternado pelas voltas no estômago e o aperto no peito. Se calhar é o mundo a querer uma pausa, a querer deixar de ser observado e expresso pelos outros. Se calhar é uma timidez da natureza que no fundo até tem o seu direito.

Só que a verdade é que os sentidos me habituaram mal. Acostumei-me a poder olhar tudo e ter uma opinião. Habituei-me a confortar-me nos sentidos para despertar estes meus dias adormecidos. E quando a névoa vem prega-me uma rasteira de uma maneira pouco dolorosa mas demasiado insuportável. A névoa é mais imponente que todos nós. Não há nada que eu possa fazer, nada que eu possa dizer e, sobretudo, ninguém a quem possa recorrer para me ajudar. E não fica bem lembrar a um homem velho como eu que se está sozinho. E assim derrotado, aqui fico eu.

Num esforço que não compensa e só cansa mais estes olhos que já são cansados. É um ar injusto, aquele onde a névoa habita. Eu não fiz nada ao ar para que o ar me falte a mim. Mas não me resta senão esperar. E esperar que no dia seguinte não acorde com a mesma névoa que me deixa poucas certezas de tudo. Por isso espero, ancorado na única certeza que resta de que lá porque não vejo as coisas não quer dizer que elas existam. As coisas estão e são no seu lugar e eu hei-de continuar a ser e a estar no meu.

  • Imagem: Sofia Lourenço
  • Sofia Lourenço
  • Sofia Lourenço aka Ophelia Amelia, nasceu lá bem no sul de Portugal.
    Há 12 anos rumou para Lisboa, onde tirou um curso de fotografia na Etic.
    Ainda trabalhou uns meses na àrea a fotografar concertos e peças de teatro, mas no ano seguinte calhou a vez de dar oportunidade ao design e foi parar às Caldas da Rainha onde se licenciou . Agora de novo em Lisboa, trabalha numa agência de publicidade e nos tempos que lhe restam livres dedica-se ao seu projecto pessoal Ophelia Amelia.

  • Palavras: Mafalda Quintela
  • Mafalda Quintela
  • Queria ser Veterinária, começou o curso de Dietética, acabou na Publicidade. Crises de identidade à parte, gosta de escrever e resolver problemas. Começou a resolvê-los na Excentric, depois na Brandia, na Bar e agora na Fullsix Portugal. Não sabe mexer as orelhas, nem dobrar a língua, assobiar ou qualquer outro tipo de truque. Admite ter escrito os números por extenso no texto do projecto para conseguir somar palavras. Gosta do hemisfério sul do planeta e odeia biografias escritas na 3ª pessoa.