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Ela começou por jurar-se imune àquela ainda tão curta rotina, tão pouca conversa, tão tosca disponibilidade entre os muitos passos de corrida que acabou por dar de rompante – aqueles, os primeiros – numa cidade cheia de ecos do umbigo dos outros. Cheia de si. A cidade, não ela. Não nos saltos nem na altura, nem na pouca certeza de uma mudança que não é feita apenas do sítio onde se está, mas antes feita de tudo o resto que com mudou com ele. E quando se olhou e se viu de pés fincados no concreto do mundo, a bagagem dos dias foi-se fazendo pesar: é que ela veio, veio pois, mas na verdade a Maria ainda não chegou aqui.

Maria, e tu, quando vens? Soava a pergunta alheia, mas era ela quem a fazia em nome próprio e dito para dentro, na pressa de ninguém o ouvir. Dito apenas na companhia que mantinha consigo, na cidade nova, velha nos hábitos também. Ela, Maria que já não era do campo, já não era das flores do jardim da avó, herdadas da bisa, como o jeito que lhe ficou desenhado algures na delicadeza com que às vezes toca nas coisas mundanas e sem pétalas. Ela, Maria que agora corre cansada por dentro, ainda que por fora ninguém diga do quanto já correu.

Ela ainda não chegou aqui.

Pois assim vem vindo devagar, e a chuva também. Incerta no que traz, como incerta é a forma como roda o molho de chaves que a abrem escancarada para quatro paredes. As da casa, as de uma longa ansiedade no comprimento e desassossego na altura, no pé alto onde o dela nunca há de chegar. “Nunca” talvez seja demais, mas o nunca é a palavra mais debaixo da língua, que ainda assim cá pra fora não sai, nem se escuta – e será que se chegasse, alguém lá de cima a ouvia?

“Há quanto tempo não te dizes que já passou, Maria?” – há quanto tempo?

Atrás: ela ainda não entrou, não rodou as chaves nem soprou pela ranhura da porta. Antes, passou a entrada do prédio, a porta do elevador corrido a grades pela vizinhança ao canto de um quadrado de elevador. Que ao menos a subisse, a elevasse nos lábios para pronunciar um bom dia a quem já lho disse. Então saiu elevador fora, passada a vez e a oportunidade de o dizer. Avançou para o tapete e sobre ele carregou os saltos pingados que não queria calçados, mas que lhe ficam bem – que lhe dão o escudo de senhora no que de menina não quer mostrar. Ela ainda não entrou… Não rodou o molho de chaves, interrompido pelo piscar de luz que se fez sentir. O piscar intermitente vindo do topo do candeeiro do hall que une vizinhos por uma lâmpada tremida, prestes a sucumbir. Uma luz trémula que evoca outras luzes, outros brilhos que juravam glamour. E então ela ainda não entra, para fechar os olhos onde todas as luzes se apaguem.

Lá, como agora de porta aberta, ela era a Maria novinha. Sem saber o que fazer de si. Foi nova quando decidiu seguir, foi nova quando decidiu parar, foi nova quando decidiu esperar por todos os outros que não esperam por ela e que – então – a fizeram correr. Mudar de sítio para tentar novo conforto ou um outro qualquer alento que uma cidade, uma casa, um tapete depois de um bom dia de um vizinho possam dar. Foi nova quando decidiu procurar-se nas linhas do corpo que sempre coseram bem à pele dos homens. Foi nova quando a inocência lhe turvou as vistas e lhe inchou a garganta de afirmações cujo significado estava longe de ser uma escolha. Na verdade, foi nova na liberdade que ganhou e na crueza que com ela revestiu um nome tão simples como só. Hoje, não foi, “é” nova. E é sozinha, no salto que tira devagar e no passo que dá para um chão de madeira duro que quis, por instantes, adiar.

Sabe que hoje não quer esperar-se no sofá, desabrigar-se na cama, nem contar os pingos grossos que escorrem como ela pelos vidros, mais fortes que os ossos que lhe tremem molhados – que secam parados, firmes, enquanto o sol se põe à janela.

Faz-se tarde ali, ela fuma um cigarro e arrasta a mão pela meia rasgada. É um rasgo maior que o que lhe corta o ar e engole o peito. Quantas vezes quis ela sair de si e das arestas da sala, passar o eco das paredes, chegar a algum lado onde nunca mais tivesse a sensação de que não bastar mudar de sítio, sem que consiga mudar de pele primeiro. Ai, a pele. A que trouxe e que assim veio pesando como bagagem que o é, sempre. E pesa de formas diferentes, em dias diferentes, que aqui ainda não a fizeram despertar outra. Nova, Maria nova. Ela que não via conforto em pintar paredes, decorar-se com almofadas como com os saltos que deixou jogados ao corredor. Mas mudar é algo que lhe dói como não devia a uma Maria que não consegue deixar de se sentir engolida e não querer estar ali.

O fumo esgota-se. Passou o tempo e a consumição que lhe latejavam abaixo dos olhos. Se ela ao menos parasse para olhar para si. Para olhar com olhos de ver e desafiantes às contradições da alma moída. Maria, bonita. A que contemplava nas coisas – nos outros e nas memórias deles – a sofisticação das formas e a doçura das palavras que queria ouvir. Pois foi, Maria…

Procura outro cigarro, inspira e silencia qualquer movimento. Medir aquele rasgão de meia deixava agora de ser embaraçoso para se tornar libertador. Estava vestida do avesso,a medir o vazio que trazia naquela malha: medir com porções de mão fechada os nadas que avistou daquele buraco. E conseguiu contá-los em cima da vezes que suspirou.

E sem sequer se mexer, a Maria sentia-se a chegar onde era ansiada.

Aqui.

  • Imagem: Sérgio Alves
  • Sergio Alves
  • Começou a trabalhar como Director de Arte na TBWA. Passou pela DDB, HAVAS e agora BAR.

    Gosta de boas ideias. Seja na publicidade, na música, nos filmes, negócios ou na arte.

    Não gosta de escrever na terceira pessoa.

  • Palavras: Ana Castanho
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  • Um bocadinho em desassossego, rodou os 4 cursos da escola superior de comunicação social, porque queria escrever e fazer… Muita coisa.
    Então, foi de produtora da área cultural até criativa publicitária e, hoje, vai escrevendo coisas, por trabalho e por paixão, procurando casar os dois como se deve.
    De produção para teatro e música, passou à produção para agências comunicação e publicidade, como a sair da casca e a parceira winicio, onde se iniciou como copywriter. Passou “para lado do cliente” pela mão da red bull, onde mergulhou na vertente de marketing cultural da marca, com a qual mantem uma afinidade especial pelo que lhe tocou o universo red bull music academy. Regressou à publicidade, entre a tux&gill e moon lisboa como copywriter criativa e, hoje, assina os emails como creative da equipa grand union – do grupo fullsix portugal. Colaborou com vários projectos artísticos e editoriais, para agora ser editora do jornal trimestral oito e escrever pontualmente para o p3/público ou plataformas ligadas à música, como a metal magazine/barcelona, a bloop recordings ou o lux frágil. Pertence à direcção do clube de criativos de portugal e quando dá aulas procura aprender com isso. Ámen.

    Se parecer pouco, ela está cá pra mais.