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Verão. Aquela estação que todos os anos chega demasiado tarde. É adiada, vem atrasada, suspiramos e desesperamos pela sua chegada. Mesmo sem a ver, mesmo sem anunciar a sua chegada, acreditamos na sua vinda. Sabemos que existe, e temos a certeza que um dia chegará com todo o seu esplendor. Sabemos porque ainda agora o estávamos a vivê-la. Estávamos. Foi noutros tempos. Felizmente lá para Maio já será possível viver um outro dia para reavivar a memória. Mas é pouco. Sabe sempre a pouco.

Todos os anos achamos que o Verão já foi melhor. São coisas da memória, essa falsa. Atraiçoa-nos. “A principal função da memória é esquecer.” Ensinaram-me em tempos. Uma daquelas verdades absolutas que só os avós têm. Para já vejo o mundo ao contrário. Estou naquela fase em que a memória serve para colecionar histórias, reunir contos vividos, outros vistos, e ainda aquelas fantasias ouvidas, para que, um dia mais tarde, possa partilhá-las como se de verdades absolutas se tratassem. É mais um ciclo. Não da Natureza, mas da Vida Humana. As verdades que ninguém poderá contestar somos nós que criamos. Alguém diz o contrário?

A cálida estação volta até nós. Pelo menos em sonhos. Recordamos por causa do calor que em tempos sentíamos nas despidas costas. O sol lá do alto aquece do mais velho ao mais pequeno. Também sonhamos com o Verão pelo cheiro do mar, cheiro esse que ainda hoje deixa o nosso sistema olfativo a fervilhar. Um perfume de curvas femininas que nos leva à infância. É uma memória que não nos larga, já que o sal teima em não sair da pele. Tal como uma tatuagem fresca, o sal está impregnado em todas as camadas da nossa derme. Não sai. Ficou-nos registado. O corpo já foi lavado, já foi esfregado e ele teima em não sair. Aliás, não é para sair. Não queremos que saia. Agora pertence-nos. Vai fazer parte de nós. É algo tão poderoso como uma longínqua memória. E à medida que as temperaturas vão baixando, a saudade vai aumentando.

Por isso é que as memórias vividas são-nos tão reais. São experiências a que nos agarramos. As longas horas que passámos a pisar aquele elemento estranho nunca serão esquecidas. Mas como é possível que das duras e gigantes rochas se transformem naquele elemento moldável e pequeno? Chamam-lhe erosão! Com o que brincamos agora é efeito de anos e anos de histórias e memórias. Mas a verdade é que nem toda a gente gosta da areia. O que é de estranhar, já que não existe praia sem ela. E sem a praia não haveria memórias destas. Existem tantos gostos quanto pessoas. Há quem se sinta incomodado. Há quem não a consiga limpar. Há também quem se aproveite disso para brincar. Basta rolar, rolar e rolar. E nisso é que a areia tem de melhor. É um elemento que podemos moldar, construir, decorar, enfeitar ou simplesmente atirar. Um buraco na areia transforma-se na mais poderosa das fortalezas. Cada grão de areia pertence agora a um gigante muro. Uma barreira intransponível. Ou assim pensamos. A cada subida de água também sobem os nervos. A cada onda que vem a esperança é que tudo permaneça intacto. Mas a verdade é que a cada maré se escreve uma nova história. Tudo se apaga, tudo volto ao mesmo plano.

E que histórias há para contar. Com pouco se faz muito, já que a imaginação faz o resto. Pequenas construções são gigantes castelos. Basta um pequeno e colorido balde, juntamente com uma frágil pá de plástico, e qualquer criança torna-se num experiente engenheiro.

ou arquitecto. Com um pequeno esforço até piscinas olímpicas constroem. Com a vantagem de que todas as obras ficam prontas a tempo. Pelo menos suficientemente prontas para se poder continuar a brincar, ou construídas no mínimo de tempo possível para completar a digestão para voltar a entrar mar a dentro. Essa é uma viagem que não se faz tranquilamente, todo e qualquer passeio até à beira mar tem que ser feita numa correria desenfreada.

Depois de horas a correr, rir e sonhar, o cansaço apodera-se de nós. Chegou a hora do anunciando regresso à toalha. Esse pequeno pedaço de pano que funciona como porto de abrigo. Um caloroso abrigo que não se restringe à dimensão da toalha. Aproveita-se o momento de descanso para recarregar as energias e voltar a encher a barriga. Na mão, como que por magia, ou mesmo por desejo aparece uma bola de Berlim, uma bolacha ou um gelado. Nas crianças toda a gula é perdoada.

Em tempos era eu que ali estivava presente. De corpo, alma e sorriso largo. Agora revejo-me como a parte ausente, mas os sentimentos são os mesmos. Tanto os meus, como os de quem lá está presente, na fotografia ou na memória. Avô e neto em amena brincadeira. Haverá brinquedo melhor do que um bem-disposto avô? Talvez a pessoa que regista o alegre momento. Sim, porque qualquer segundo das extensas 24 horas em que se ouça o sorriso do filho tornam a vida muito mais feliz. E como os avós sabem fazer os netos felizes. Até parece que o corpo rejuvenesce. Os pulos são mais altos, não existem buracos que não sejam explorados, ou árvores demasiado altas para serem escaladas. Onde o neto vai, o avô lidera o caminho. Afinal, são anos e anos de experiência, que tornaram todas as dúvidas em certezas. Com um filho há sempre um milhão de questões, dúvidas e tantas outras preocupações na nossa mente. Já quando se tratados netos a confiança é outra, a entrega à brincadeira é total.

Agora o Verão já terminou, e chegámos a esse antípoda estacional que nos vai prender por mais uns tempos à corrente fria. Resta-nos assistir ao lento crescer dos dias. O calor vêm aí. Ou pelo menos esperemos que sim. Haverá mais histórias para registar, mais memórias para guardar. Para o Verão basta-nos aguardar mais uma vez pela sua chegada. Já falta pouco. As memórias de Verão estão quase a voltar.

  • Imagem: Ruben Santos
  • Ruben Santos
  • Ruben Santos é um Criativo/Director de Arte, Ex-futebolista e mais recentemente Pai do Francisco.

    Começou na BBDO PORTUGAL, passou pela EURO RSCG e está actualmente na BRANDIA CENTRAL.

  • Palavras: Miguel Castanheira
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  • Chamo-me Miguel Castanheira, sou publicitário de profissão, comunicador invertido nos tempos livres, e pai de um pequeno Viking a tempo inteiro.
    Comecei a escrevinhar em grandes folhas A3 recicladas ainda na pré-primária dos Salesianos dos Estoril. Foi aí que aprendi a escrever os meus indecifráveis hieróglifos. Ainda passei um ano na Secundária de Cascais, vulga Poli, antes de ir começar a escrever linhas e linhas de papéis no ISCEM, onde acabei o curso de Comunicação Empresarial.
    Fui aprender a afiar os meus lápis do lado criativo no curso de Copywriter na Lisbon Ad School. De lá sei com a confiança que ia mudar o mundo. Ingénuo. Mas pelos vistos não aprendi. Agora com 31 anos continuo a trabalhar a achar que vou conseguir mudar alguma coisa. Se consigo mudar a fralda uma criança a espernear, o mundo não será assim tão difícil.

    Já escrevi em grandes e pequenas agências, para marcas mini ou mesmo gigantes. Já ganhei prémios, já fui shortlist, mas também já olhei para trabalhos e questionei: Porque é que eu não fiz isto antes? Já escrevi para a Briefing, já fui entrevistado para o Expresso, há até quem diga que me viu na RTP 1.