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No dia em que a Mãe Natureza desceu para se refrescar, a tremedeira foi tal que até o sal foi sacudido do mar. Ouviu-se um estrondo imenso que ecoou no outro lado da ilha e despertou a atenção de todos os seus habitantes. Um deles, uma mulher, pegou em tudo o que tinha e começou a correr assustada, seguindo um trilho de folhas que dançavam presas aos ramos, ainda por causa das vibrações. Chegaram ao local quase três horas depois e a reacção não foi diferente da esperada: ele não queria ver; ela não queria acreditar. Afinal a Mãe Natureza existia mesmo e estava ali, na ilha onde eles viviam e que até então julgavam ser deserta.
Tinham desaguado naquela praia há sete anos atrás, nove meses antes do nascimento dele. O rapaz nem sequer tinha nome porque nunca houve a necessidade de o distinguir de outro. A mulher chamava-se mãe. Só mãe. Sem qualquer apelido da parte do pai. O receio da mulher nos últimos anos tinha toda a razão de ser. O seu pequeno rapaz estava a instantes de se aperceber que havia mais para além do que conhecia. Embora vivesse numa ilha, nunca tinha tocado num bicho, nunca tinha corrido ao ar livre, nunca tinha ouvido um não. Só ficou constipado umas vezes porque até nas ilhas desertas existem correntes de ar. Era isso que assustava a mulher. Ela assumia a responsabilidade de não ter preparado o rapaz para o que mais dia menos dia teria que acontecer. Nunca pensou que viesse a ser preciso. Tão embevecida com a dádiva que a Mãe Natureza lhe deu, não se lembrou que um dia a própria Mãe Natureza poderia voltar para lhe retirar tudo aquilo que entregou ao ventre dela. Os medos cresciam à medida que iam surgindo. E eram muitos. Passou-lhe tudo pelo coração. Primeiro o contacto com outras crianças, depois o sarampo, as pulseiras verdes da Estefânia, as testas raspadas no alcatrão, o sexo sem preservativo, o satisfaz na prova de português, tudo. A primeira coisa em que a mulher pensou foi em fugir. Fazer uma jangada com aquilo que a ilha lhe pudesse oferecer e lançar-se à água. Por segundos, achou que essa seria uma forma de adiar o que estava diante dos seus olhos.
Depois pensou em comer o próprio filho. Engoli-lo. Lá na cabeça dela, essa ideia era uma forma de o fazer voltar à sua barriga e de o esconder por um tempo que fosse suficiente para digerir tudo aquilo que estava a acontecer. Também não o fez, mas só porque enjoou na gravidez. Pensou em ficar imóvel, na esperança que a Mãe Natureza a confundisse com uma rocha. Mas depressa se apercebeu que não resultaria. O melhor seria aceitar a situação. Foi nesta altura que decidiu contar ao rapaz tudo o que estava a acontecer. Encheu o peito de mar e cuspiu palavras encapeladas que mais não fizeram do que provocar um autêntico tsunami no rapaz que não tinha nome.

  • Eu não sou tua mãe de verdade.
  • É mentira.
  • Ouve-me.
  • Tu não mandas em mim. Não és minha mãe.
  • Escuta. Nós somos filhos da mesma mãe. Eu não fiz mais do que carregar-te e tomar conta de ti.
  • Eu quero saber quem é a minha mãe.
  • É a Mãe Natureza. Vê, está ali a refrescar-se.

Coitado, ainda não tinha idade para largar as braçadeiras e já se via envolto numa onda que o enchia de areia. Quando a bonança voltou e o mar voltou a ser chão, o rapaz desceu do colo que o protegeu de tudo e de todos durante toda a sua vida.

O que até fez com que a mulher se sentisse aliviada com aquele peso de sete anos a sair-lhe de cima. A verdade estava entregue e já não havia nada a fazer. Assim que os pés do rapaz tocaram no solo, ele começou a correr, distanciando-se rapidamente da mulher que, enquanto olhava para ele, pedia ao cérebro que bloqueasse todos os músculos do seu corpo. Quando chegou perto da Mãe Natureza, a primeira coisa que o rapaz fez foi subir a uma árvore. Trepou, partiu um galho e fez dele uma espada. Quando estava a descer da árvore, o rapaz caiu e esfolou os dois joelhos, mas nem isso o impediu de desferir um golpe certeiro com a sua espada numa rosa azul-celeste. Pegou na flor e começou a correr na direcção da mulher que continuava a olhar para ele sem se mexer. O rapaz correu, correu, correu e quando estava a apenas dois metros da mulher deu um salto que o levou até ao colo dela. Já nos braços da mulher, o rapaz ergueu a flor em direcção aos olhos e disse-lhe:

  • Apanhei-a para ti, gostas?
  • Gosto, gosto muito.
  • Era da Mãe Natureza. Agora é tua.

A mulher apertou o rapaz com toda a sua força e olhou para a Mãe Natureza. Nesse preciso instante, a terra voltou a tremer e a Mãe Natureza começou a afastar-se. A mulher, apercebendo-se do que estava a acontecer, começou a chorar.
Foram lágrimas suficientes para devolver ao mar todo o sal sacudido durante o primeiro abanão (o que mais tarde viria a inspirar Camões). O pesadelo tinha acabado e a mulher podia voltar à vida que escolheu para eles. Ela não sabia a que horas a Mãe Natureza voltava, mas também não lhe interessava. Tudo o que queria agora era voltar a ter o rapaz nos seus braços e regressar ao lado da ilha onde eles estavam livres de todos os perigos e em perfeita harmonia. Voltou as costas e seguiu exactamente pelo caminho que os levara até ali. O rapaz espreitou discretamente por cima do ombro da mulher e despediu-se da Mãe Natureza, com um sorriso. Ele sabia que a partir daquele dia nada seria igual, mas por agora também não estava interessado. Só queria fechar os olhos e adormecer tranquilamente. E dormiu. Boa noite, filha. Dorme bem.

  • Imagem: Ruben Rodrigues
  • Ruben Rodrigues
  • Tem 36 anos e é alfacinha desde sempre.
Estudou Matemática na Universidade Nova de Lisboa mas os números não chegaram.
Segue o instinto e começa como criativo numa pequena agência de publicidade. Durante este tempo estuda fotografia no Ar.Co. 
Em 2009 muda para MSTF Partners, e 2 anos mais tarde, aceita o convite da BBDO. 
É um dos fundadores do coletivo de fotografia FOTOVOLTARCOS e expõe regularmente individual e coletivamente em espaços como Round the corner, Cordoaria Nacional ou BES Arte & Finança.
Em 2014 é distinguido como Melhor Diretor de Arte de Portugal no CCP. 

  • Palavras: Tiago Vital
  • Tiago Vital
  • Tiago Vital, 34 anos. Começou a trabalhar na Caixa Alta depois de ter respondido “Direitos de Autor” ao Director Criativo que lhe perguntou se sabia o que era um Copywriter. Nos últimos anos, passou pela BBDO, Publicis, Lowe, NOSSA, LUME e Havas. Aceitou este desafio, mas só porque se apercebeu que pela primeira vez não o iam obrigar a cortar palavras de um texto (o que não se veio a verificar).