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Acordei e não sabia onde estava. Como ali cheguei, de onde vinha e para onde ia. Sabes quando vamos a conduzir tão alheados que chegamos ao destino e não nos lembramos como? Espero que não, porque é um perigo. Ou como naquele filme do cubo, mas sem as armadilhas letais. A meio de uma destas dispersões o gps emocional recalibrou. Bem, não tava nada à espera de ir ali parar. Mesmo. Onde seria a saída? Uma pergunta só por perguntar, porque não estava realmente à procura. Estava tão perdido como confortável. Fui deambulando, passei à rua seguinte e à seguinte e à seguinte só para ver mais. Não se estava nada mal. Fui ali dar por acaso mas não tinha nada que enganar. Senti que por ali ia andar uns bons tempos, 300 anos que fossem, haja saúde. – Boas, como está, ça va… Andava por lá mais gente, mas só de passagem. Não viam o mesmo que eu. Bruxo, se vissem não me desamparavam o âmago. Lá iam à sua vida, não lhes gabava o azar. – Não vens? – Não, bebo mais um copo, vão andando vocês. Um ou outro iam ficando. Pais, primos, amigos, os locals. Estes já viam mais qualquer coisa, mas também não viam o mesmo que eu. Já ia conhecendo alguns, mas poucos e mal, tinha-me mudado há pouco tempo. Que belo sítio ou espaço ou casa ou bairro ou o que é. E isto tudo sempre com uma sensação de novidade famliar. De entrar num andar modelo e encontrar lá a minha mobília, os posters, as fotos, os cheiros. A minha casa dentro da casa nova. Ainda me cheirava a novo e já me cheirava que estava em casa. Parecia impossível. Mas muita coisa parecia impossível até chegar ali. Deixar-me ficar muito tempo no mesmo lugar, por exemplo. Mas ali estava eu, dias que se fizeram semanas, que se fizeram meses, agora era ali o meu sítio, sem cheiro a novo, simplesmente casa. Entre quatro paredes invisíveis que deixavam arrepiar por caminhos a fora. Paredes que não se viam e muito menos se pressentiam. Por isso, não pensava nelas. E enquanto não me lembrasse que estavam lá, algures, mesmo que muito para lá de longe, era o mesmo que não existirem. Até um dia. Maldito dia. Sentimento que podia ter ficado por ai, como uma comichão. Cocei, cocei, cocei. Não desapareceu, também não fez ferida. Fez pior, fez-se pensamento. Mau. As nuvens carregaram-se. A temperatura caía devagar. Até que se espalhou ao comprido. Não dava mais para evitar o confronto com a realização. Estava naquele sítio de que tanto gostava, mas qualquer sítio, por definição, tem limites. Este pensamento, que ainda não o era, era mais uma sensação que caminhava com vontade própria para a racionalização. Sensação e pensamento, dois conceitos que se resumiam a uma palavra: dúvida. Sim, essa palavra por vezes tão ameaçadora como um terramoto para as fundações do pensamento. No vazio entre ter encontrado o meu sítio, num lugar que até aí era terra de ninguém, e a lembrança do que havia lá fora. O que tinha deixado para trás, uma terra sem paredes onde tinha a liberdade de ir para onde soprava a vontade, de estar com quem fizesse sentido. E não preciso explicar que tudo isso não é pouco. Por muito que quisesse estar neste novo lugar ou espaço ou casa ou bairro ou o que é, nem sei bem que palavras traduzem a dificuldade com o passo de assumir que ali me ia deixar ficara viver feliz para sempre. O peso era demasiado. O ar gelado de repente arrancou-me a ferros de dentro da minha cabeça e apercebi-me que estava a anoitecer. Há quanto tempo vagabundeava a pensar, a duvidar? Apercebi-me também que o meu corpo se encaminhava em passo rápido numa espécie de instinto de fuga sem que, conscientemente, lhe tivesse dado ordens para isso. Para onde ia? Como diria a minha Avó, para onde as pernas me levassem. Mais pertinente era a pergunta: noite? Desde quando? Era a primeira desde que ali acordei. Acelerava o passo. Às tantas já era a cabeça que me levava, sabia o que procurava, era o muro, as paredes, a porta. Tinha de ser, não podia ficar, não sem saber até quando. Não sabia estar de outra forma que não de passagem. E quase sem me aperceber, o peso ia desaparecendo aos poucos. Respirava melhor só por decidir ir. E fui. Fui com tudo. Andei toda a noite. E, como não tinha qualquer referência, cortei a direito. Sempre a olhar para o chão para não ver o que faltava. Até que a vi ao longe, qual oasis, A porta. Não aguentei não correr. Alcancei-a a bufar, rodei a chave e empurrei-a. Mas bastou um passo, logo ao primeiro fôlego de “liberdade”, para dar coma verdade ali escancarada à frente dos meus olhos. Esta não é uma porta para a liberdade, é só uma porta para outro sítio. Não dá para estar a não ser num sítio qualquer, até que deixemos de estar. E mesmo aí não sei. O que sei é que percebi onde estava a minha liberdade, livre de comichão. Recuei, retranquei a porta e retirei a chave. Não queria deitá-la fora, ainda alguém a podia encontrar. Não queria guardá-la tampouco. Não, esta chave não faz sentido. Já amanhecia quando me pus de novo a andar e a pensar, sempre a andar e a pensar, porque só andando se pode chegar a algum lado. Andei até voltar às ruas com casas, virei duas esquinas e lá estava a saída para poder ficar para sempre: um ferreiro. Entrei, disse ao que vinha e o homem mandou-me voltar no dia seguinte. À hora combinada, menos 5 minutos, lá estava eu a apreciar a obra feita. A chave maldita já era, fundida e transformada nessa bendita aliança que tens no dedo. Bom, a música está a acabar. Mas basicamente foi assim, um dia acordei dentro de ti. Agora tu.

  • Imagem: Ricardo Marques
  • Ricardo Marques
  • Ricardo Marques
    Criativo /Director de Arte

    De Lisboa mas portista de gema. Foi nadador e triatleta de alta competição há uns 20/30 kilos atrás.
    Chegou a sonhar ser profissional mas rapidamente percebeu que nem com muito doping ia lá.
    Virou-se para a publicidade onde já passou pela Euro RSCG, Brandia, BBDO e Fuel. 
    A melhor ideia que teve foi feita em conjunto com a dupla (naturalmente), na verdade já vão para a segunda.

  • Palavras: Nuno Riça
  • Nuno Riça
  • Nuno Riça é um recreativo publicitário.

    Passou por BBDO, Strat e Havas, está actualmente na BAR Lisboa.