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“Lá vai a gaja em direcção à minha única hora de paz. À espera do autocarro que a leva e que, infelizmente, também a traz. E aí tudo recomeça. Televisão aos berros, aquela bengala a bater no taco e o taco a “bater-me” na cabeça a cada passo. Os gatos, o caralho dos gatos que são dela e o cheiro a gato que atravessa as paredes e que também passa a ser meu. A chaleira que fica a apitar entre dois a quatro minutos, dez vezes por dia, até que a gaja se levante e vá, a passos muito curtos, desligá-la. Trinta e seis passos da puta do sofá até à chaleira, 18 dos quais é a bengala que os dá. Onde? No taco que, por sua vez, “dá” onde? Na minha cabeça. Trinta e seis! Conto todos os dias. Mas calma, 36 para ir e trinta e nove para voltar, uma vez que vem com a chaleira cheia de água a ferver e é preciso ter cuidado para não cair… e não queimar a cara na água escaldada… e não berrar de dor, imóvel, no chão, com uma anca partida… e não ser ouvida porque a televisão estava muito alta… e não ser descoberta, morta, nove dias mais tarde porque o cheiro do corpo se sobrepôs ao dos gatos… e um vizinho, que não eu, chamou uma ambulância… trinta e nove passos… dos quais 19 podem ser dados com o pé esquerdo e 20 com a bengala direita, dependendo do membro que a gaja escolhe para começar a andar. E mijar? Ui, como mija. Dez chaleiras de chá por dia equivalem a uma média de 12 visitas diárias à casa de banho, mais duas a três para ir “dar um toque” no autoclismo porque a água ficou a correr. A casa de banho fica a 31 passos do sofá. Trinta e um… Ontem trouxe-me pelo braço desde casa dela até à minha porta. Tratou-me pelo meu nome, como se tivesse a maior confiança do Mundo comigo. “Outra vez, Padre Júlio? Venha lá que eu levo-o a casa.” disse ela. Eu não sabia quem ela era ou porque é que eu estava escondido atrás das cortinas de casa dela. Estava assustado. Isto acontece-me muito, segundo o que me dizem. Esqueço-me de coisas. Do que estou a fazer, do que estava a dizer… mas depois lembro-me de fragmentos do passado. Lembro-me de um Fiat 125 vermelho que tive em tempos, lembro-me de ser apanhado a copiar num exame de Francês, lembro-me das 17 mulheres que matei… da cara de cada uma, do cheiro, a que é que sabiam, lembro-me de tudo ao pormenor mas já cheguei a dar por mim a olhar para a minha escova de dentes e não saber o que era ou o que estava a fazer na minha mão.

Olha a gaja… o autocarro hoje deve estar a demorar mais do que o costume, já meteu a mão esquerda no bolso, normalmente é sinal de que está a ficar com frio. Ainda bem. É mais tempo que ela passa fora de casa. É menos tempo que eu sofro. Sim porque esta vaca passa o dia a martelar-me a cabeça com aquela bengala, isto sem falar da televisão que está tão alto que é simultaneamente capaz de curar um surdo e ensurdecer o ouvido mais saudável. E os gatos? Foda-se, os gatos… cheiram a mortos mas estão vivos, os cabrões. Será que a gaja anda a querer foder-me um sentido de cada vez? O olfacto, a audição e a visão já estão. Sim, ando cego de raiva. Tacto, já não tenho muito. Só fica a faltar o paladar. Se a gaja me fode o paladar, fodo-lhe a boca. Mato-te! Estás a ouvir? Mato-te! Não é difícil matar uma gaja que leva em média três minutos a ir do sofá até à cozinha. 36 passos para ser mais preciso. Trinta e seis! Conto todos os dias. Metade dos 36 passos ficam carimbados na minha memória por aquela bengala. Esqueço-me de tanta coisa hoje em dia porque é que a minha cabeça não esquece também a tortura diária que sofro? Deve ser porque a gaja não deixa. Mal acaba de dar os 36 passos até à cozinha para ir buscar a chaleira que berrou durante três minutos, dá mais 39 para voltar. Vem mais devagar, não vá tropeçar e cair… e bater com a cabeça num móvel… e ficar inconsciente, a perder sangue pelo crânio enquanto a água a ferver lhe coze o braço até ficar médio/mal passado… e os gatos, quatro dias depois do acidente, um dia depois de ela estar morta, comecem a depenicar o braço e justamente, já que a dona não lhes dá de comer há quatro dias… trinta e nove passos. Mas não pára aqui. Não vá eu estar quase a esquecer-me daquele martírio, ela levanta-se e dá mais 31 passos até à casa de banho para ir mijar aquela chaleira toda. Depois volta. Dez chaleiras, em média, por dia que a gaja vai buscar à cozinha mais as 13 vezes, em média, que vai à casa de banho dá um total, médio, de 1153 passos diários, dos quais, se eu tiver sorte, 577 são dados com a perna esquerda e 576 com a bengala da perna torta.

Onde é que eu ia?… Olha, lá vai a vaca. “Glória, glória, aleluia.”, como cantávamos nas minhas missas…. E foi Cristo derramar sangue por ti, minha puta… minha cruz, meu purgatório. Vais ser o meu fim mas um fim que não veio de repente. És um fim que veio há anos e não sei por quantos mais anos se prolongará. És um fim com mil “is”, que só acaba quando se me acabar o fôlego… odeio-te e hoje vou pôr um fim a isto. Vou subir, entrar no teu antro, esconder-me e esperar-te. Hoje e só hoje, não te demores, não me vá eu esquecer do que fui lá fazer.”

  • Imagem: Raoul Van Harten
  • RvH
  • Director de Arte

    Nascido em 1978 em Wageningen (Holanda), vive em Portugal há vários anos, onde se licenciou em Publicidade pelo IADE.

    Começou a sua carreira em 2001 e passou por agências como a NormaJean, a BBDO, a TBWA e a McCann.

    Desde 2011 trabalha na JWT como Director de Arte.

  • Palavras: Miguel Durão
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  • Há muito que pode ser dito sobre Miguel Durão. Naturalmente nem tudo é positivo e o facto de ele estar a escrever esta biografia na terceira pessoa atesta isso. No entanto, Miguel Durão, redactor publicitário nascido em 1982 na cidade do Porto, tem duas ou quatro qualidades que lhe permitiram fazer um percurso profissional interessante durante estes nove anos de carreira. Um estágio bastante precoce na agência Opal Porto deu a Miguel a confirmação de que precisava para, dois anos mais tarde, seguir viagem para a capital em busca de voos mais altos. Começou então a trabalhar na McCann onde, munido de um bloco de senhas de almoço e uma enorme ambição, conseguiu evoluir e ganhar ainda mais paixão pelo que fazia. Quase dois anos volvidos e Miguel mudava-se para a BBDO, onde viveu durante os três anos seguintes. Cresceu então no jovem uma vontade de aprender sobre o fabuloso Mundo da publicidade digital, surgindo a Fullsix como a opção mais apelativa. Quase dois anos de Fullsix deram a Miguel a confiança para tentar o mercado internacional. Mudou-se para Londres, sem trabalho, apenas com as suas poupanças. Trabalhou como freelancer para várias agências durante seis meses e re-emigrou para Paris a convite da agência Buzzman. Uns porreiros. Desde então até agora, passaram cerca de dois anos e meio e chegou a altura de Miguel Durão abraçar um novo projecto, desta feita na cidade de Nova Iorque. E é basicamente isto.