M

A vida de Armando corria sobre rodas. Mas houve um dia em que teve um problema na suspensão, já vão perceber porquê.

Tudo fazia acreditar que era um dia normal na vida de Armando, que estava bem longe de perceber que aquele dia iria ser tudo, menos normal. Acordou às sete da manhã, como todos os dias. Levantou-se e foi tomar um duche e o pequeno-almoço. Até aqui, tudo normal. A seguir, foi até à paragem de autocarro, mas autocarro, nem vê-lo. Havia greve. Por isso, seguiu a pé para a fábrica de automóveis onde trabalhava, havia mais de 20 anos, a montar carroçarias. O estranho foi quando chegou à fábrica e a fábrica estava fechada. Uma tabuleta anunciava “Fechada durante tempo indeterminado”. Então, Armando pensou: Não posso baixar os braços, é preciso levantar a cabeça. Mas na verdade, seguiu pela rua cabisbaixo a pensar na vida.

Perto da hora de almoço, passou por casa e chamou a mulher e o filho para lhes dar a notícia. Chamou uma, duas, três vezes e nada. Foi à cozinha e encontrou a loiça do pequeno-almoço ainda por lavar. Esquisito. Subiu ao quarto e teve a sensação que alguém tinha saído dali há muito pouco tempo, porque os cortinados ainda se mexiam ao sabor do vento. Abriu o roupeiro e só encontrou a roupa dele. Muito esquisito. O quarto do filho também estava vazio. Ora bem, naquela bela manhã de Inverno, a vida de Armando tinha-se virado do avesso e ninguém sequer se tinha dignado a avisá-lo. Tinha ficado sem emprego e a mulher tinha, aparentemente, fugido de casa, vá-se lá saber porquê, e levara-lhe o filho.

Ligou-lhe. Desligado. Teria mudado de número? Procurou em casa alguma pista sobre o destino desconhecido da família, mas nada. Foi para a rua, mostrou a foto dos dois a toda a gente que encontrou, mas ninguém parecia reconhecê-los. Parecia que nunca tinham estado ali. Pareciam totalmente estranhos para toda a gente. Tinham-se simplesmente evaporado. E agora, o que é que ia fazer sem a família? Tinha que começar por algum lado. Mas por onde? Como? Sabia que tinha de fazer alguma coisa. Mas o quê?

Primeiro que tudo, tinha que arranjar um trabalho. Precisava de um carro para ir em busca da mulher e do filho. Mas Armando não tinha dinheiro suficiente. Voltou ao quarto, abriu o armário, pegou no martelo e partiu o porquinho. As economias não lhe chegavam nem para uma roda do carro. Quando chegou a essa triste conclusão, Armando lembrou-se que as economias se calhar ainda davam para duas rodas. Era isso mesmo: uma scooter, vá lá, em segunda mão. E foi então que lhe surgiu a ideia de criar um serviço de moto-táxi. Assim, ao mesmo tempo que ganhava dinheiro, viajava em busca da mulher. Meteu as moedas num saco e foi até ao stand de usados mais próximo. Escolheu uma Honda azul. Deu o saco das moedas e ficou sem nada. Só com a mota e com o saco vazio. E ainda teve que ceder o relógio do bisavô que tinha no pulso e a sua aliança de casamento. Foi então que arrancou com o negócio, e com a mota.

Nos primeiros tempos, não foi fácil arranjar clientes e Armando passava mais tempo a vasculhar a cidade à procura de uma luz. Mas por que carga de água é que a mulher iria desaparecer? Com o passar do tempo, Armando lá foi arranjando mais clientes. E quanto mais dinheiro fazia, mais longe conseguia ir. À noite, sonhava sempre com o dia em que ia reencontrar a família que tinha desaparecido sem deixar rasto. Porém, acordava sempre antes de isso acontecer. Seria um prenúncio? Talvez. E Armando lá ia na sua scooter azul levar e trazer pessoas, de um sítio para outro, de uma cidade para outra, de um país para outro. Até atravessava continentes e chegou a ir ao Pólo Norte. Sempre na esperança de um dia encontrar o que procurava. Vasculhava tudo, mas nada. Absolutamente nada. Uma vez, até entregou folhetos com a fotografia dos desaparecidos a um piloto da Força Aérea para que ele os lançasse lá de cima, de maneira a que se espalhassem e assim chegassem a mais gente. Mas nada. Foi uma ideia que o vento levou. Até uns pássaros roubaram folhetos para pôr no ninho, antes de chegarem ao chão.

Uma coisa era certa na cabeça de Armando: a mulher não queria saber dele, mas ele queria muito saber da mulher. E do filho ainda mais. Mas os sítios onde procurar começavam-se a esgotar. Já tinha dado praticamente a volta ao mundo e nada. Teriam morrido? Armando sentia que não. Estavam vivos e bem vivos. Não sabia era onde. Nem sabia se algum dia iria chegar a descobrir.

Mas Armando recusava-se a desistir. O tempo foi passando, mas a vontade de encontrar o que tinha perdido, permanecia a mesma. E a eterna dúvida não lhe desaparecia da cabeça. Todos os dias, de manhã à noite: porque raio é que a mulher teria desaparecido de um dia para o outro e ainda por cima lhe tinha levado o filho? A vida deles era quase perfeita: amavam-se, achava ele, sempre tinham sido fiéis, pensava ele, raramente discutiam. Não conseguia encontrar uma única razão para o que tinha acontecido. Era demasiado frustrante.

Ao fim de quatro anos, houve um dia, mais um dia normal, em que Armando saiu de casa em missão. Foi transportando pessoas de um lado para o outro, como era hábito, e à noite já se encontrava na outra ponta do país. No dia seguinte, logo de manhã, continuou. E numa rua, uma mulher com duas crianças mandou-o parar. Os três encaixaram-se na mota e seguiram viagem até ao destino pedido. Armando estava muito longe de casa e ainda mais longe de saber que aquela era a sua mulher, com o seu filho, que já não reconhecia, e com uma filha que não era sua. Afinal, a fuga da mulher tinha tido uma razão.

  • Imagem: Pedro Gaspar
  • Bio
  • Pedro e o Lobo Gaspar apareceu em Lisboa a 28 de Junho de 1982.

    É um maquetista multidisciplinar; dedicou-se fundamentalmente às artes plásticas (Photoshop, Keynote, Paint) e à escrita de e-mails e posts.

    Pedro é uma figura ímpar, a sua precocidade levou-o a dedicar-se desde muito jovem a desenhar nu. 
    Mas a notoriedade que adquiriu no início de carreira prende-se acima de tudo mais com a parte de colorir. 
    Personalidade contornável, a sua inserção na vida e na cultura nacionais é extremamente complexa; segundo José Augusto França, dele fica sobretudo a imagem de “português sem talento” e, também, tragicamente, “sem discípulos”. Fortes bíceps.

  • Palavras: Daniel Jubilot
  • unnamed
  • Daniel Jubilot nasceu em Lisboa e é, acha ele, copywriter.

    Passou pela Ativism, pela Euro RSCG e actualmente exerce funções na Brandia Central.