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Uma. Penso no que é e em tudo o que podia ter sido. Vou atrás e desfaço. Refaço e refaço-me. E eis-me ali. E é-me tão familiar.

“Olha, vê. Espreita aqui. Espreita como tudo podia ter sido. Como tu podias ter sido. Era isto que querias ser? Que querias ter?”

“Sabes bem que sim.”

“Eu sei. Espera, já vou.”

“Eu espero. Tenho todo o tempo do mundo.”

Tiquetaque.

Duas. Lá fora, de repente – e infelizmente –, tudo calmo. Nada. Apenas e só o silêncio. O mesmo silêncio que me levou até aqui. Que me calou e sentenciou. Silêncio que ainda agora começou e já me faz não querer regressar. Cá dentro ouço apenas a mesma palpitação que teima em não parar. Em não abrandar. Ainda demoras muito?

Três. Há uns tempos decidi fugir, heróica e erradamente, para a frente. Mas apenas fugi, não resolvi. Fui tão fácil de enganar. De me enganar. De qualquer forma, para mim, ficou bem claro que virias. Afinal, foi o que disseste. Foi o que prometeste. Ou pensei eu que o fizeste. Jurei eu. Desejei eu. Implorei eu. Ainda vens? Claro que vens. Se não, estaria eu aqui à espera de quê? Que o tempo apenas passasse e terminasse? Nunca. Só preciso que me dês razão. Apenas e só preciso que chegues.

Quatro. Uma fina e implacável camada de ar atreve-se a congelar tudo o que toca. Sei o que isso é. Um frio que se sente bem cá dentro, que me faz sentar e nada sentir. Espera! Penso que agora mesmo te vi passar ali ao fundo. Não? Talvez não. Mas agora que penso, afinal quantas vezes já nos devemos ter cruzado? Dez, vinte, cinquenta, cem? Que tenham sido mil. A verdade é que ainda era cedo. Sim, tão cedo. Muito mais cedo do que agora, é certo. Só que agora já está na hora. E eu apenas não quero que se faça tarde. Eras tu, não eras? Eu sei que eras.

Cinco. Seis. Sete. Os primeiros raios procuram destapar-me. Ainda de olhos fechados, decido assim ficar. Para quê abri-los, se já pouco ou nada vejo? Diz-me, passaste por mim enquanto eu dormia? Porque não me acordaste? Porque não me olhaste nos olhos? Porque não te apresentaste? Afinal não passaste. Então porque teimas em demorar a acordar-me? Se assim é, vou deixar-me aqui ficar mais um pouco. Esperar que me destapem de vez e desta vez sem piedade. Até porque há coisas que não podemos parar. Por mais que queiramos.

Oito. Finjo que já são horas. Finjo uma boa noite de sono. Finjo que me levanto. Finjo um beijo de bom-dia.

Nove. Finjo o pequeno-almoço. Finjo sair à rua. Finjo dizer mais uns quantos “bons-dias” a quem passa e finjo conhecer. Finjo ler o jornal. Finjo preocupar-me com o que se passa lá fora e não apenas dentro de mim.

Dez, onze e doze. Finjo o trabalho. Finjo as conversas. Finjo os sorrisos.

Treze. Finjo o almoço. Finjo que me sabe a alguma coisa que não ao mesmo.

Catorze, quinze, dezasseis e dezassete. Finjo ainda mais um pouco. É de dia, custa sempre menos. Maldito dia que me atenuas o sofrimento e me fechas os olhos. Bendita noite que mos abres.

Dezoito. Finjo o regresso a casa. Finjo que a chave casa na perfeição com a fechadura da porta e que este tapete me dá as boas-vindas. Finjo que o cheiro que sinto me sussurra que cheguei a casa. A minha casa, ao meu lar-doce-lar. Por último, finjo outro beijo. E que este fosse o último de todos os que ainda terei de dar. Que seja.

Dezanove. O dia cai e eu caio com ele. Daqui já não me levanto mais. Aqui já não finjo mais.

Vinte. A noite volta. A saudade volta. Voltas e voltas de revolta. A revolta de sentir saudade por alguém que nunca vi. Por alguém que ainda não conheci e que está tão perto de mim.

Vinte e uma. Mais uma que avança, outras mais que se seguirão. Aprofundo-me nos meus pensamentos que também são os teus. Afundo-me ainda mais nos lençóis. Frios, insistem em nunca aquecer. Não me incomoda. Não me importa. Apenas me importa saber se já está na hora.

Vinte e duas. Vinte e duas horas que, lentamente, já passaram. Segundos que se passam uns aos outros, lenta e sossegadamente. Minutos. Horas. Ponteiros que se atropelam, sem pedir licença. Assim é esta saudade que me corrói. Que me rói. Que me dói. Assim, igualmente, lentamente.

Vinte e três. Os olhos já me pesam. Teimam em fechar-se, forçando-me a trancar-me na minha própria escuridão. Não, hoje não. Hoje já perdi muito. Por agora, decido mantê-los abertos. Por agora e para sempre, espero eu. Depende apenas de ti.

Vinte e quatro. Observo as vinte e quatro horas que chegam, anunciando o fim de um dia e o começo de um outro. Mal consigo precisar o momento exato em que tal mudança ocorre. Frenético momento, este. Como tudo muda, em menos de nada. Mas eis que o tempo não para de avançar e outro dia já se levanta. Olho em volta e nada está diferente. Então, afinal, o que mudou? A hora e o dia. Apenas e só. Então ainda não é a nossa hora. Ainda não é o nosso dia. Terei de continuar a aguardar pelo tempo em que o tempo me dedicará algum do seu precioso tempo. Já era tempo, na verdade. Para isso, preciso que chegues. Chega! Quantas mais vezes tenho de o repetir? Quero olhar-te, viver-te, falar-te, sentir-te. Sentir que estamos certos. Que estamos realmente perto. Porque é do teu tempo que preciso. De todas as tuas horas, de todos os teus minutos, de todos os teus segundos. Então o que esperas? Vem, eu espero. Por ti, pelo dia em que te vou conhecer. Pelo dia em que me vou conhecer. Pelo dia em que vamos começar a viver. Eu espero. Afinal, tenho todo o tempo do mundo. Tiquetaque. E já é uma outra vez.

  • Imagem: Paulo Perdigão
  • Paulo Perdigão
  • Todos os dias vejo, às vezes tiro fotografias outras não.

  • Palavras: César Silva
  • unnamed
  • Um copy de poucas palavras. Filtrar é preciso.