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Vinha carregada do mercado e parei aqui para descansar, especialmente as mãos, que senti a cortarem-se dos sacos. Parei aqui, por breves minutos e já cá estou há 10 anos. Neste mesmo sítio. Aqui. Esta é a minha rotina desde que o meu marido morreu e que a minha filha conseguiu arranjar casamento. Desde essa altura que passei a existir, existindo. E prefiro ir existindo aqui, onde, se não me levantar quando baterem as 6 da tarde, alguém me há-de ver, olhar para o relógio e voltar a olhar-me e perceber que está aqui alguma coisa que não é suposto estar. Em casa, estaria até ao meu próximo aniversário, e logo eu que não gosto de festejar anos novos. Faz assim tanta diferença? Porque é que as pessoas assinalam os dias em que nasceram? Eu lembro-me do dia em que pari a minha filha e é esse o o dia mais especial. O dia em que dei vida ao mundo. Agora o dia em que nasci…para quê? Vou continuar aqui. Vou celebrar uma coisa que nem me lembro? Chega-me saber que já cá estou há muito tempo ou há demasiado tempo, depende dos dias.

Hoje está sol. Tivemos sorte. Tu porque aproveitas a luz e escusas de andar aos a fugir da chuva com essa mochila toda e eu porque posso estar aqui e não debaixo do toldo desse café da frente. Os donos não gostam. Dizem que afasto a clientela, mas olha para ti ainda aqui à minha frente. Lá nunca posso estar à vontade, a não ser quando os donos estão fora e aquele empregado mais novo não está de folga. Ele deixa-me sentar num dos bancos e tudo. E às vezes, quando começa o mês traz-me alguma coisa para comer. E eu fico ali, sentada com um bolo à frente, até me ir embora. É um dia diferente. É um dia em que, aparentemente, estou do outro lado. E confesso-te que gosto mais de me sentar no chão, no banco sinto-me menos honesta. Ali não consigo olhar para a vida da mesma maneira. Quando estou no chão, posso olhar o quanto eu quiser que se desviam os olhares, nunca se cruzam. Sentada no café, incomodo mais. Mas podia ser pior.

Nunca gostei nem fui pesada para ninguém. Sou a mais velha de 7 irmãos. Assim que me meti de pé, comecei a ajudar a minha mãe no campo atrás da casa. E já a minha mãe tinha um dos meus irmãos a berrar e outro a caminho, tive de sair da aldeia para uma fábrica de tingir tecido, mas sempre fui miudinha de corpo e os meus braços não chegavam para agarrar tanto peso. Passei-me para uma fábrica de prata para fazer pulseiras, brincos, colares…e pagavam-me bem por ser miudinha de osso e conseguia montar as peças mais pequeninas. Mais rápido até que as máquinas estrangeiras que chegavam.Só saí de lá quando casei. E eu nem queria, estava bem assim…mas dava muita tristeza à minha mãe e assim que encontrei um homem, casei. Nunca me apaixonei, mas gostava muito dele porque falava pouco.

As pessoas falam muito. Umas com as outras. Ao telefone. Têm muito para dizer. Eu nunca fui de grandes conversas. Acho que é uma coisa como outra qualquer. Mas exige treino e eu nunca tive arena para treinar. Eu falo muito, mas não através do som. Será que isto te faz sentido? Estou aqui há uns 10 minutos a falar contigo e nem sequer sei que língua é essa que falas. Assim entendemo-nos. E não te preocupes que não falo com palavras difíceis. Floreados só na roupa. Sou honesta.

Mas sabes, tenho o dobro ou o triplo da tua idade, mas a minha vida não é nem vai ser muito diferente da tua.Tu e eu. Sobrevivemos. É o sentido mais honesto da vida. Não pertenço a uma casta alta, mas até hoje que faço disso um adjectivo. E pouco interessa quantos homens tive, fui sempre leal aos que mais quis. Mesmo aos que nunca me quiseram.

Percebi que tinha envelhecido, quando num qualquer dia nublado, me olhei ao espelho e o Tilak, bem no meio da testa, fez-me sentir um alvo andante. A esta altura, um alvo coxeante. Senti que a morte, a partir daqui, estaria numa esquina ao acaso. E é por isso que nunca me sento em esquinas. Lá, só putas e a morte.

Mas ainda sou necessária. Aqui. Exactamente aqui. Nem um metro mais ao lado. Sou aquilo que as pessoas vêem como referência das voltas que a vida dá. E isso dá-lhes força e motivação para continuarem. No final do dia, eu inspiro os outros. Ser uma musa, não é um mau destino, pois não? Podia ser pior.

Não peço esmola, não te vendo nada…a minha mão não se estica. Não ta vou abrir. Também porque não quero que me leias a sina.Se queres conhecer a minha vida, olha-me. Pois ela está em cada linha da minha cara. Em cada forma do que vês.

E há 10 anos que se cruzam comigo milhares de rostos, roupas, até máquinas que tiram fotografias, diferentes. Percebo a evolução da vida pelas máquinas fotográficas dos que vão passando. É impressionante. Cada vez são mais pequenas. Às vezes falam comigo em idiomas esquisitos. Fico sempre com a sensação que o mundo é um lugar maior do que imaginava. Se me cumprimentam, eu aceno. Se me perguntam coisas, finjo-me de surda. Mesmo quando percebo que me perguntam se me podem fotografar. Será que também perguntam o mesmo ao Ganges ?

Por isso, tira-me as fotos que quiseres, mas não me peças para te olhar de frente. És mais um dos milhares que me levam de recordação. E tu vais-te lembrar de mim. E quando voltares de onde vieste, vais-me mostrar entre imagens de vistas e silhuetas diferentes das que os vossos olhos estão acostumados. Mas eu amanhã não vou sequer saber que te cruzaste comigo.

Eu existo aqui. Mesmo quando deixar de existir.

  • Imagem: Maria Cristina Sena
  • Maria Cristina Sena
  • Maria Cristina Sena, com 32 anos. Alentejana de gema mas muito cosmopolita.
Terminou o Curso de Design Visual, no IADE em 2006. Trabalhou, entre outras, agências na Havas e na Bar. Neste momento está a abraçar um novo projecto na área da moda e da comunicação: a criação e lançamento da sua própria marca de sapatos, Nativus. É uma apaixonada pelo mundo e pelas pessoas que nele habitam.

  • Palavras: Cátia Domingues
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  • Cátia Domingues é uma existencialista que escreve coisas. De publicidade a humor, é uma artista de variedades.

    É do signo caranguejo e o seu tipo de sangue é o 0+, caso algum dia precisem de saber esta informação.

    Aprendeu a ler sozinha com a Mafaldinha e pensava que Hotmail era um site pornográfico. Um dia vai mudar o mundo.