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Uma escada rolante é um método de transporte que consiste numa escada, cujos degraus movem-se mecanicamente. Por regra, transporta pessoas até 300Kg, em posição horizontal. Por acaso já não tenho 280 quilos, senão se calhar parava a escada. Neste caso até era engraçado. A vista é linda. E sim, já tive 280 quilos. Fui o que se chama um obeso mórbido. Emagreci há uma década atrás, antes dos reality shows de emagrecimento engordarem os cofres das televisões com audiências de peso. Porque é que fui gordo? Comia muito. Tão simplesmente comia demais. Mas dizia-vos que as escadas rolantes são usadas para transportar confortável e rapidamente um grande número de pessoas, entre andares de um dado edifício, especialmente em centros comerciais. Salvo algumas excepções, de forte urbanidade oriental, como esta escada onde me encontro, rolante de profissão, mas que por acaso não rola. E eu em forma! Não foi por minha causa, é a única certeza que tenho na vida, agora que cheguei aos cinquenta e daqui é sempre a descer. Por isso até foi bom parar no início da descida. A vista é linda, já vos tinha dito? Cliché como qualquer horizonte predial de uma megametrópolis, um vasto jogo de “Onde Está o Wally?”, neste caso, um “Onde Está o Pagode Centenário?”, e bem vistas as coisas há ali um, e ali outro, marcos de um civilização que perdeu o oriente quando os dólares invadiram o mundo; mas olha ali outro pagode, imagino as centenas de velas acesas em torno do Buda gordo como já fui um dia.

A vista é linda. Claro que quem passa por mim a descer pelos seus próprios pés a escada – que redundante – que não tinha sido fabricada para dar trabalho algum aos pés, claro que essa gente apressada não dá valor nenhum a esta vista, foi essa gente que fez estes prédios, foi para essa gente que os prédios foram feitos, gente simples e trabalhadora como eu, com uma única diferença crucial: não ficam parados numa escada por momentos não rolante. A direção do seu movimento, que por acaso agora não existe, é sempre para cima ou para baixo, (esta era para baixo), e pode ser permanentemente a mesma ou controlada por empregados de acordo com o horário do dia ou controlado automaticamente, ou seja, uma pessoa chegando à escada rolante pelo andar de baixo faria com que a escada se movimentasse para cima, e vice-versa: uma pessoa chegando à escada rolante pelo andar superior faria como que a escada se movimentasse para baixo. Não faço ideia de qual categoria esta se enquadra, excepção feita se existir a categoria “escada que não desce, nem sobe, apenas te convida a ficar e a apreciar a vista”. Algo que não deve ter passado pela cabeça do americano Jesse Reno, o suposto inventor da dita cuja. Ou de Charles Seeberger, que há quem diga, o verdadeiro criador da mesma, fundador da OtisElevatorCompany, a mítica companhia que fez a primeira e ainda hoje faz tantas, milhões de elevadores por esse mundo fora, e ainda ascensores que quando param não devem ter graça nenhuma. Excepto, esta escada rolante exterior, parada há minutos, com uma vista de cortar a respiração, com toda a graça do mundo e arredores. Até diria do universo se de repente visse um OVNI.

Não estamos sós, não. Será que num planeta infinitamente distante, tecnologicamente anos-luz mais avançado do que nós, será que lá há escadas rolantes? E se as há, será que alguma vez param? E se param, será que há alguém que fica nelas parado? E se alguém fica nelas parado, será que já foi obeso mórbido e agora está em forma?

Entretanto, más notícias para mim: a escada começou a descer. Lá em baixo vislumbro uns tipos com ar de serem da manutenção. Os homens do status quo: se é rolante tem de rolar, não é? Uma escada destas não quer ser só uma escada, apenas com degraus, deixando a decisão de a descer ao corpo do cidadão, não o obrigando a descer se assim não quiser. Esta escada, funcionando, manda em nós. Só entra nela quem quer, argumentarão. Certo, mas nessa defesa da máquina, equacionem a maior das humanidades: o erro, o engano. Sim, enganei-me, não queria descer, só entrei nesta escada pela vista, porque queria encontrar neste horizonte um, dois, três pagodes, uma, duas razões de viver. Razões de permanecer neste mundo que faz mais prédios do que pagodes. Que faz escadas rolantes que se chover param, e ainda não sabe controlar a chuva. Isso ainda é matéria para os ídolos nos pagodes, nas igrejas, nas mesquitas, nas cabeças, nos livros em sei lá quantas línguas. Eles, esse algo que existe, Ele ou Eles conseguem fazer chover. Nós, mortais, conseguimos apenas pôr escadas rolantes a funcionar, mal a chuva pare (pois, afinal foi a chuva, sim chovia, eu é que me esqueci de referir isso, peço desculpa caro leitor – em nenhuma escada rolante neste momento, espero – pela sua saúde; ler assim dá em tropeçar, a escada é para descer, não é para cair), mas dizia-vos e ao mundo, que adorava ser o verdadeiro manda-chuva: Deus.

Até há uma hora atrás ainda tinha algum poder como administrador-executivo de uma companhia de seguros onde subi degrau a degrau. Até há uma hora atrás. Exactamente quando me demiti. E eis-me aqui só, sem 300 quilos, nem gabinete com o nome a dourado, e acrescento sem mulher, nem filhos, não porque não os tenha ou tivesse tido, apenas estão longe e esse apenas é, tão e só, muito. Estão muito longe. De mim, desta escada agora em movimento, que não pára de descer. Morreram, sim, adivinhou. A morte é como a chuva. Incontrolável. A obesidade da minha mulher foi literalmente mórbida: trouxe-lhe a morte súbita, e uma forma menos repentina para o meu filho, com apenas 6 meses, esmagado pela queda do corpo que o tinha posto no mundo. E agora, vou subir na outra escada rolante a ver se pára.

  • Imagem: José Filipe Gomes
  • José Gomes
  • Nasci a 16 de Maio de 1983 com o destino traçado: ser a pessoa que pior desenha no mundo inteiro, talvez no Universo, caso exista vida inteligente fora da Terra – acredito mesmo que sim, o que agrava ainda mais a situação.

    Apesar disso, com muito trabalho e alguma sorte à mistura, consegui enganar a falta de talento para os bonecos e todas as pessoas que encontrei pelo caminho (McCann, JWT, Lowe, Strat, BAR – em Portugal; Bassat Ogilvy e Proximity Barcelona – em Espanha; Jung von Matt/Alster e DDB Berlim – na Alemanha) e tornar-me Director de Arte.

    Pelo meio, enganei mais uns quantos publicitários e ganhei prémios em alguns festivais como El Sol, ADC Germany e CCP, publiquei trabalhos na Lüerzer’s Archive e ainda enganei as mais de 60.000 pessoas que sacaram a Hipstelvetica.

    É uma data de gente para enganar, o que prova que pelo menos tenho talento para alguma coisa.

  • Palavras: Nuno Leal
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  • Gosta tanto de escrever como de fotografar, mas uma vez convidado a escolher um dos lados, cumpre a palavra. Tem 37 anos acabadinhos de fazer e não alonga mais esta bio, terminando com chavão de ouro: saiba mais em nunolealwork.tumblr.com.

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