I

Round 1

Estava numa situação de clinch, a sua cabeça estava presa nos braços do adversário e os seus braços bloqueados, sentia-se um saco de boxe, pronto a apanhar e como um bom saco de boxe, ficava ali parado, sem reclamar.

Fuja quem puder! E os seus pingos de suor fugiam, sem olhar para trás. O sangue escorria-lhe pela cara, como quem nos toca pela última vez antes da despedida. Ele estava numa situação de clinch, ou melhor, numa situação apertada.

 

Round 2

Se isto fosse um filme de acção e ele o herói, era mais fácil, os heróis safam-se sempre.

“Dá-lhe com força nas costelas” – alguém gritava no canto.

“Ele solta-se, usa o poder da sua esquerda e faz K.O” – escrevia o argumentista.

Ou mais épico ainda, ele olhava para a plateia e em câmara lenta via o sorriso do seu filho, nesse momento o seu corpo reclamava de volta as suas forças e ao crescendo de uma música épica soltava-se dos braços do adversário usando a sua arma secreta, o seu punho esquerdo, era simples. Mas neste dia a sua arma secreta estava sem munições e esta história não tem argumentista.

 

Round 3

As suas forças estavam a desaparecer lentamente mas o seu cérebro continuava a lutar, por isso, os dois começaram a negociar. “Não baixes os braços, tu não és um perdedor, um desistente, um fraco, tens de lutar – implorava o cérebro.

Perdi e tenho de aceitar, já fui o mais forte, o mais persistente, o temido, o guerreiro. Já fui tudo. Eu não vou perder, já ganhei muito – respondeu a força.

No final desta luta todos foram unânimes, ninguém ganhou, ninguém perdeu, ou como se diz no boxe, houve um empate técnico.

 

Round 4

1, 2, 3, 4, 5…a contagem batia ao mesmo tempo que o seu coração.

6, 7, 8…e no último assalto…9, 10…ambos se renderam.

 

Round 5

Este foi o teu último combate mas naquela noite fui eu que perdi. Perdi-te para o boxe e nessa noite o boxe morreu para mim.

Eu sei que nunca fui um pugilista, era apenas um voyeurista do teu sonho. Tu sabias disso, eu não tinha um punho forte, não era rápido, e nem havia uma categoria para mim, peso “hiper, mega, ultra pesado”. Mas tu era um pugilista de sangue puro, um verdadeiro herói. Tu combatias o “mal”, aqueles que te queriam derrotar e conquistar o mundo do boxe. Defendias os fracos e oprimidos, ou melhor, eu, de todos os outros que me olhavam de lado, e que eu desafiava olhando em frente. Afinal, não é esta a definição de herói?

 

Round 6

Ao longo destes 20 anos também tive as minhas lutas, as minhas vitórias e as minhas derrotas mas nunca fui um campeão, nunca cheguei à final, nunca fui um herói para ninguém, nem para mim.

Sinto-me um peso pluma a lutar contra o mundo, e o mundo é bem pesado. Não tenho hipóteses, eu tentei fazer aquilo que me ensinaste, “Se ele for maior do que tu, não uses a força, usa o cérebro e cansa-o correndo de um lado para o outro, quando a respiração dele for mais rápida que os teus pés, páras e usas toda a tua força”.

Eu tentei, juro, mas o mundo não é um ringue de boxe e era eu quem estava cansado de lutar.

 

Round 7

Mas quando entrei aqui tudo fez sentido. Era para aqui que eu corria depois da escola só para olhar para ti. Era aqui que fingias que eu era tão forte como tu “ Ajudas-me? Preciso de alguém forte para segurar no saco”, e eu,  enquanto mudava de cor, segurava-o com todas as minhas forças. “ És valente” – dizias tu. Era feliz, sei-o agora.

Olha, estou a ver o teu saco daqui, desmaiado no chão sem ninguém para o reanimar. Está velho, gasto e cheio de pó. Mas o saco de velocidade está como novo, é como nós, há uns que envelhecem melhor do que outros.

Do ringue sobram apenas algumas tábuas que abrigam duas famílias de roedores.

A tua ventoinha já não é tão discreta mas funciona. A tua bandeira perdeu a cor, perdeu o Colorado, o Texas e a Califórnia, e neste estado sem estes Estados, já não serve, vou ter de comprar uma nova. O sol é o mesmo, visita-nos sempre à mesma hora e com a mesma força, esse vou deixar como está.

 

Round  8

No dia seguinte pus mãos à obra. Comecei por limpar tudo, e claro, tive de expulsar as duas famílias que lá viviam e que nunca pagaram renda. Depois recuperei os teus sacos, para ganharem o vigor que tinham antes.

Ao fundo coloquei um novo ringue, igual ao que tinhas, chão forrado com pano verde e à volta barras de madeira a segurar os elásticos.

O tecto estava despido e, sem qualquer pudor, mostrava-me os canos e as vigas de madeira, que aproveitei para pendurar os sacos, algumas faixas que tinhas guardado e uma nova bandeira.

 

Round  9

Foi naquela batalha que te deixei. Segui a minha vida, apaguei-te, pensava que era mais fácil assim.

Cresci e fiz-me um homem duvidoso. Segui o “mau caminho”, perdi-me nele e ninguém me procurou. Voltei a tentar, voltei a perder-me e ninguém me encontrou. Dei um murro na mesa, dei um murro em mim, não era a tua esquerda, eu sei,  mas derrubou-me para fora do ringue.

Voltei atrás no tempo, onde tudo era seguro, onde tudo parecia certo e encontrei-te.

Se me aceitares de volta prometo fazer tudo bem. Vou fazer-me um homem, desta vez ambicioso, um lutador corajoso, como sempre quiseste que eu fosse, um verdadeiro “valente”.

 

Round 10

Finalmente recuperei a tua academia, devias ver, está como nova, e dei-lhe o teu nome, claro.

Agora, vou sentar-me aqui e esperar que cheguem os novos lutadores, os novos heróis de alguém.

Vou sentar-me aqui e começar de novo. Já caí, já me levantei, que toque o sino. Vou lutar mais um Round.

  • Imagem: João Rocha
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  • Famoso intérprete de tuba de marcha. Reconhecido escritor de romances bíblicos. Galardoado físico no estudo da Constante de Planck. Apreciador de pizzas com massa fininha. Coleccionador de troféus da Playstation.

    Mentiroso compulsivo.

  • Palavras: Rita Carmo
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  • Rita Carmo, 33 anos.

    Entre todos os meus sonho de menina ( sim, porque não é só o Tony Carreira a tê-los), estive indecisa na carreira de militar, que surgiu no dia em que assisti ao filme GI Jane, patinadora ou argumentista de cinema. Vendo bem agora, devia estar na fase da formação de identidade. Entre as três hipóteses escolhi a última – até porque não fico bem de cabelo rapado e odeio vestidos de licra –
    mas com a pequena diferença que, os meus filmes passaram de uma tela de cinema para um ecrã de 42 polegadas, e as minhas longas metragens têm no máximo 45”.

    Hoje sou redactora de publicidade na Fuel, e nos últimos tempos especializei-me em boxe. Levei algumas pancada, deu luta mas não fui ao chão, porque quem escreve por gosto, não se aleija.