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  • E se alguém tiver posto isso aqui e estiver a topar-nos? E se estiver à espera que façamos o que estás a sugerir para nos deitar a mão?

Apesar de seguro da sua eloquência, Rodrigo intensificou o discurso:

  • Prende-nos e chantageia-nos até não termos dinheiro nem para uma Céline de imitação.

Estas palavras ajudaram. Naquele instante, impediram-nos de sair para a rua para largar no lixo aquele saco com pó branco que não ousavam investigar e que valeu a Rodrigo o acordar mais agitado dos últimos 10 dias.

  • Anda ver isto! – exorara Margarida, voz equilibrada entre a discrição e o descontrolo, toalha pequena na cabeça, toalha grande no tronco.

Ultrapassada a languidez desse retrato, Rodrigo concentrou-se. Numa prateleira jazia um pequeno saco de plástico com pó branco e sistema de selagem.

  • Ó diabo… – pensou suficientemente alto para ser ouvido – Pegaste nisto?
  • Sim. – devolveu Margarida – Porquê?

Os gestos de Rodrigo trataram de responder. Arrancou um pedaço de papel higiénico e limpou tudo o que pudesse ser vestígio de contacto do plástico com as mãos da namorada.

  • Isto parece mesmo o que parece, porra… – não conteve Rodrigo – Como é que isto veio aqui parar e como é que vai desaparecer?

Estavam em Bangkok. Não era difícil fabulizar explicações para a presença de pó branco num saco de plástico com sistema de selagem num hotel próximo de uma área onde prostitutas com pelo menos dois sexos jogam quatro-em-linha em esplanadas com clientes do mundo.

Depois de exploradas várias possibilidades de desfecho, falar com um responsável pelo hotel parecia a mais avisada das opções.

  • Se isto nos trouxer problemas, também lhes traz a eles. – disse Rodrigo quando saiu, desgrenhado, quarto afora em direcção ao elevador.

Na recepção do hotel, no meio de tanta gente, Rodrigo sentiu-se a arder. A boca seca com um sabor metálico, o que lhe sugeriu a sensação de lamber grades de cela de prisão. Encontrado um responsável pelo hotel num fato que denunciava hierarquias, Rodrigo foi veemente ao convocá-lo para o oitavo andar, onde Margarida o esperava. Mais composta de roupa, não dos nervos.

  • Tem a noção dos problemas que isto pode trazer ao hotel? – perguntava Rodrigo, sem noção de grande coisa além dos problemas que isto lhes podia trazer a eles.

Reconstituído por palavras o acordar do casal, o responsável do estabelecimento ia garantindo que o assunto seria esclarecido sem consequências para ambos. Cenário que só se tornou plausível quando o diligente funcionário agarrou com as mãos nuas o pacote em causa, contribuindo para uma orgia de impressões digitais. O alívio de Rodrigo ouviu-se a quilómetros. Arriscou:

  • E falarmos com a polícia?
  • Com certeza. Vou tratar disso. Se não se importarem de esperar um pouco… – pediu o funcionário.
  • Veja lá isso. – avisou Rodrigo – Temos que estar à uma na estação de Chatuchak. Andei semanas para marcar um corte de cabelo na Three Brothers Barbershop e não vou perder o lugar. Conhece?

Se conhecia, nada disse. Dois segundos depois estava no corredor a caminho do elevador. Vinte minutos depois estava de volta.

  • Deixo-vos com este polícia que encontrei na Soi 8. – foi tudo o que disse. E voltou a sair.

Sentado na cama desfeita, o jovem agente com ambições de intimidação fazia um esforço desumano para compreender a narração daquela manhã quando, nem quatro minutos depois, o responsável do hotel bateu à porta. Rodrigo abriu para se deparar com um sorriso impossível. O tipo tinha a saqueta de plástico na mão e preparava-se para abri-la.

  • É detergente! É detergente! – repetia– Perguntei às empregadas de limpeza. É detergente para os clientes lavarem a sua roupa. Cheire.

Era detergente. Era constrangedor. Era libertador.

  • É detergente! – gritou Margarida para a autoridade – Detergente!

O embaraço quer-se breve, portanto despediram-se. Mas, consumada a saída definitiva do funcionário do hotel, Rodrigo fez sinal ao polícia para que permanecesse.

  • Talvez não tenha vindo aqui em vão. – avançou – Quero contar-lhe uma coisa que nem a minha namorada sabe.

Rodrigo tinha agora duas pessoas suspensas pelas suas palavras. Prosseguiu:

  • Antes de virmos para a Tailândia estivemos no Vietname. Passámos três dias num barco em Ha Long Bay. O sítio mais bonito do planeta é, afinal, um inferno turístico. A dada altura aproveitei uma paragem do barco para desaparecer numa pequena ilha durante todo o tempo que me fosse possível. Não era CátBà. Era só mato. Andei uma hora entre árvores tropicais até me deter a metros de uma senhora que com as mãos ia fazendo chapéus acompanhada pelo som da natureza selvagem. Mas não foi esse o único som que ouvi. Debaixo dos meus pés, vozes gritavam ordens com cadência. Em vietnamita, imagino eu. Sem que a solitária mulher me visse, procurei um caminho para o subsolo. Está a ver aqueles buracos camuflados de todas as cenas de batalha de todos os filmes sobre a Guerra do Vietname? Encontrei um e espreitei até onde pude. E é isto que espero que faça algo pela sua carreira: debaixo da terra de uma ilha que não consigo identificar, há uma linha de montagem de chapéus artesanais. Centenas de pessoas alinhadas e escravizadas oferecem a sua vida a esta mulher. No escuro. Na humidade. No calor. Derretem. Entrançam as folhas secas que levamos na cabeça para casa. E sabe quem lhes grita lá em baixo, num buraco do inferno onde o sol não entra? Reconheci-os a todos. Está preparado para o que lhe vou dizer?

Não estava. Ainda assim, ouviu:

  • Marlon Brando, Martin e Charlie Sheen, Willem Dafoe, Robert De Niro, Christopher Walken, Robert Duvall e Sylvester Stallone. – disparou Rodrigo.

Silêncio. Os seus dois interlocutores já não estavam em suspenso, mas trucidados pela incredulidade.

  • Como é que eu posso acreditar nessa barbaridade? Há fotografias que comprovem tal coisa? – arriscou o agente.

Rodrigo agarrou no telefone e, enquanto acedia às imagens, respondeu-lhe:

  • Só tenho uma. Infelizmente, a cabecilha, a responsável por este horror, está de costas. Tive medo que me descobrisse. Quer ver?
  • Imagem: Hélio Renato
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  • Hélio Renato, nascido em Lisboa no verão quente de 1981 acredita desde então ser de nacionalidade portuguesa. Começa desde cedo a riscar tudo o que fossem folhas em branco, incluindo mais tarde alguns livros de matemática, filosofia e/ou português. Em 2007 descobriu que podia ser mais artista do que já era e começou a estudar para ter o “fancy name” de Art Director. 2010 foi o tão desejado início no glamoroso mundo das noitadas de trabalho em publicidade, primeiro na Publicis Lisboa e mais tarde na Bottom Line Ativism.

    Em 2012 decide mandar tudo à fava e vai viver para a Suíça. Faz de Zürich casa e do alemão a sua segunda língua, quebra preconceitos e mostra que os portugueses não trabalham só nas obras e limpezas e podem fazer da Helvetica uma bela peça de filigrana. Actualmente, é Director de Arte numa agência de publicidade suíça e faz da fotografia um dos seus hobbies preferidos. Usa-o como desculpa para viajar e para, quem sabe, um dia mandar tudo novamente à fava.

  • Palavras: Pedro Gonçalves
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  • Pedro Gonçalves começou a ganhar a vida, ainda adolescente, em trabalhos temporários tão diversos quanto arquivista de apólices de seguros e empregado de balcão de posto de informação turística.

    Em 1994, entrou para o então jornal BLITZ, em cuja redacção permaneceu e escreveu durante cinco anos. Passou depois pel’O Independente e pelo NetParque, como editor e editor executivo, tendo pelo meio de tudo isto redigido na Agência Expo e no Diário da Expo ’98, VoxPop, Slang, DIF e Time Out Lisboa (onde ainda escreve crítica de música), entre outras minudências e dois programas na rádio Voxx.Regressaria ao BLITZ como editor executivo para depois assumir a direcção do jornal musical.

    É um publicitário tardio. Chegou à BBDO em 2007, onde esteve meia década a trabalhar clientes como BES, ZON, Galp Energia, Mercedes e Jumbo. Depois de uma passagem pela agência O Escritório, onde se dedicou em boa parte à causa do Moche, regressa à BBDO para cumprir funções de Copywriter e Head of Digital.