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Nos filmes, as pessoas sentem-se mal, deixam-se cair nos braços de alguém de quem gostam, nunca de um desconhecido, dizem coisas profundas sobre a vida, dizem “amo-te muito”, nunca “dói-me tudo”, e fecham os olhos para morrer.

Na vida real, o meu pai esteve a ver televisão toda a noite, levantou-se sem dizer nada, coçou-se sobre um pijama turco e foi morrer para o quarto.

Pelo menos é assim que imagino, porque eu não estava lá.

Ligaram-me esta manhã e eu perguntei “quem é”, e responderam-me “é a Francisca” e eu disse “deve ser engano” e ela disse “sou a empregada do seu pai”. Aqui tenho de explicar que só vi a Francisca uma vez na minha vida e foi mais ou menos assim: um dia que o meu pai me ligou a pedir ajuda para carregar os móveis que estavam a estorvar e já nem dava para passar, arranjei um amigo para vir comigo, arranjei um automóvel grande para fazer 100 quilómetros. Abriu-me a porta uma preta que agora sei que se chama Francisca e ela disse “o seu pai está no quarto”. Eram duas da tarde e no quarto era noite cerrada. Estava escuro, cheirava a gin e o meu pai disse “devo ter comido qualquer coisa. Olha, é para me ajudares a levar aquela estante lá para baixo” e voltou a enrolar-se nos lençóis sem me ajudar coisa nenhuma.

Então foi a esta mesma Francisca que eu perguntei se o meu pai estava bem e que me respondeu “sabe como é o seu pai, nunca está bem. Mas agora está morto”.

Peguei no carro e arranquei para baixo. No caminho, a Sofia ligou-me e eu expliquei-lhe o que se passou. Ela disse “Que pena. Sei bem que não eram próximos, mas…”. E não ouvi a adversativa porque não há mas a seguir a não ser próximo de um pai. Sinceramente, que se foda. Aliás, era assim que ele pensava das mulheres em geral. Dizia sempre a mesma coisa, dizia que “as mulheres são como as moscas, ora pousam na merda, ora pousam nos doces”. E depois falava da minha mãe. Dizia que era o amor da vida dele e, depois de muitos copos, a maior puta que já conheceu. Às vezes vice-versa.

As memórias são doses minúsculas de razão que o teu cérebro tem reservado para quando estás muito feliz ou quando estás na merda. E ao lembrar-me destas conversas paro numa estação de serviço e pergunto-me o que é que eu estou a fazer. Provavelmente quando lá chegar já ensacaram o cadáver, o meu pai está num saco plástico preto opaco e as coisas com ele ficam mesmo por aí. Mas depois se calhar é como nos filmes e deixam o corpo por ali até alguém chegar, enfim, o melhor é ir para baixo e voltar ainda antes do final do dia.

Quando chego a casa não está ninguém. Não há ambulância, não há Francisca. Não há o meu pai. Um cão vem cheirar o pneu do meu carro. Parece reconhecer-me. Eu tenho a certeza que nunca o vi. E tenho a certeza que não cheiro ao meu pai. O meu pai odiava animais, acho eu, pelo menos dizia-me “Queres cães para quê? Os cães só comem e cagam. E para isso chegas-me tu”.

O cão segue-me enquanto eu percorro a sala, o quarto e a sala de jantar. O meu pai morreu de manhã mas parece que já não há ali vida há muitos anos, aliás eu não me lembro da última vez que lá estive. As paredes brancas têm manchas pretas da lareira, os sofás têm buracos antigos dos cigarros, o chão cola-se aos meus pés. “Quando tinha a tua idade”, dizia aquele grunho, “achava que as mulheres são troféus e só queria pegar em ouro”, depois fazia uma pausa e bebia um trago de gin antes da punchline, “Depois apodreci e os troféus também. E então percebes que não eram de ouro”.

A casa não cheirava a cadáver, cheirava a podre. Segui o cheiro até à cozinha. Abri o frigorífico, estava vazio. Abri um armário atrás do outro. Quando abro a dispensa ouço alguém descer as escadas. Parece uma mulher que não vê a cidade há muitos anos, uma professora de português que aparece nos noticiários a dizer que foi colocada muito longe. Eu dou um passo atrás e pergunto quem é. Ela diz “Poupe-me. Olhe, vou propor-lhe uma coisa”. “O quê?”, pergunto. “Que se vá embora. Não faça mais pergunta nenhuma. O que eu lhe tenho a dizer é isso mesmo. Vá-se embora. Não pergunte mais nada. Pegue no seu carro e não faça mais perguntas”. Eu disse “Eu vim ver o meu pai, onde é que ele está? Tenho todo o direito de estar aqui. E você, de onde é que apareceu?” mas reparo nos sapatos foleiros dela e distraio-me. “Mas quem é você?”, insisti. “Não me faça mais perguntas, já lhe disse. Deixe as coisas como estão. Volte para a Maria, que anda a sentir-se sozinha e tem saudades suas. O que é que você quer daqui? Chorar? Quer voltar para cima e escrever que você e o seu pai eram muito mais parecidos do que pensava? É isso, não é? Não seja lamechas. E não, se me perguntar não são. Sabe o que é que eu costumava dizer ao seu pai? Que os homens são como as moscas. Ora pousam na merda ora pousam nos doces. E, pelo que o seu pai me contou, você já provou um. Agora deixe-me em paz”.

O dia caía e o caralho, enfim, meti-me no carro e vim ter contigo. Quem era aquela mulher não sei, porque é que havia de estar ali também não, nem porque é que comprou uns sapatos daqueles a ver-se os pés todos, um pavor. Não quero saber. Nem sei porque é que te estou a contar isto, Maria, vamos mas é comer qualquer coisa enquanto me contas como tens passado, que nunca mais soube nada de ti.

  • Imagem: Francisco Chatimsky
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  • Começou em 2003 como designer e ilustrador para pequenos estúdios e revistas. Em 2007 entra para a Havas Lisboa e em 2011 troca para a Brandia Central como DA. Em 2012 entra na BAR Lisboa.

    É agora Director Criativo da Fullsix Portugal.

  • Palavras: Pedro Pinho
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  • Pedro Pinho é criativo n’O Escritório, onde tem o prazer.
    Antes disso passou pela Leo Burnett e antes disso foi advogado.
    Nunca viu uma capivara.