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Nasceu. No dia em que se achava que ia fechar os olhos para sempre, nasceu. Nesse dia, aos 73 anos, deu mil passos, disse mil palavras, deu mil gargalhadas. Não os contou, mas digo eu, que escrevo, que assim foi. Começou como os dias, de manhã. Nascia ela e o sol. E saiu de casa cedo e tal como estava. Nem sabia como. Aliás, só mais tarde se viu reflectida na montra de um banco. Mas o momento “don´t give a fuck” em que se encontrava ajudou. O que viu só a fez rir mais e pensar, “que se lixe”.

O seu sonho era ser caixa de supermercado. Mas nunca ninguém a tinha levado a sério. Que sonho. Mas eram os piiip de cada compra, era a forma confiante com que elas carregavam no ENTER e abriam a gaveta dos trocos, era o boa tarde frio e robótico, era a farda. Tudo aquilo a fascinava e a fazia invejar aquelas miúdas, novas, inocentes, desligadas e sem perspectivas. Sobretudo, tão pouco agradecidas. Desprezavam todos os dias o sonho dela, e sonhavam com a sua realidade. Ser rica e não fazer nada. Foi decisivo. Ia pedir emprego. “Que se lixe”, e foi.

Desde o primeiro passo fora de casa que renascia e via com novos olhos a sua rua. Conhecia melhor a calçada que os prédios, as montras e as árvores seculares. Os anos que ali viveu, viveu-os cabisbaixos. Saía de casa de olhos postos no chão. Tímida da rua, da vida que ali passava. Agarrada à mão do pai. Depois do marido. Depois dos filhos, fez a rua de cor, sem lhe ver cor. Hoje, sem mãos, pela primeira vez levantou os olhos, sentiu nas veias a adrenalina como na primeira vez que se chega à parte do mar sem pé.

Não que sentisse que em algum momento perdeu tempo. Não. Aquele dia, na verdade, nunca teria acontecido se tivesse andado mais acordada. Valeu a pena, portanto. Pensava nisso quando se viu na montra do banco, reflectida, como se de uma fotografia de passe se tratasse. Ficou longos minutos a olhar-se. Camisa branca por passar, sorriso inquebrável, maquilhagem perfeita, rolos do cabelo por tirar. Sorriu, se fosse mais nova, eu que escrevo sei que diria “foda-se, lindo”. A pressa do seu renascimento nem lhe deu tempo para acabar o ritual de embelezamento. Porque bela já ela se sentia. Que se lixe.

Continuou o passeio mais consciente de si, reparando agora que não havia olhos que não pousassem nela, comentários que não fossem sussurrado, miúdos que não fossem travados, agarrados no braço pelas mães. Decidiu acalmar. Percebeu que estava a assustar os tensos. Os que, ao contrário dela, ainda não percebiam a liberdade. E foi, então, no último suspiro após gargalhadas, que finalmente, entre cabeças no passeio, viu um brilho ao fundo. Era ele. Finalmente. Meteu a mão ao bolso, sentiu o que queria, a forma que lhe deu a certeza do que ia fazer, e mais uma vez, que se lixe.

Tirou do bolso a chave do Mercedes descapotável, abriu-o com o comando no mais natural dos gestos. Os olhares de medo desapareceram – naturalidade não causa estranheza. Arrancou. Chiaram os pneus, esfumou-se a borracha no alcatrão e foi, feliz, na estrada que nunca tinha sido tão dela. Distribuía bocas abertas, já nem era pelos rolos, nem por rir sozinha, mas porque era agora a “velhota mais fixe”. A acelerar como os mais novos não faziam. Só que às vezes tinha de relembrar que pedal servia para quê. Talvez fosse da idade e da adrenalina. Travão. Acelerador. Embraiagem. Que se lixe.

Acelerou como nunca, naquilo que lhe pareceram 350 km/h em Le Mans. Outro sonho antigo. Deu voltas e voltas à rotunda do centro da cidade. Sem parar, sem ouvir quem a chamava da rua avisando-a da porta aberta. Sentia o ar fresco levantar-lhe os cabelos e não trocava a sensação por nada. De facto, era tanta a força do ar, que achou que a janela estava demasiado aberta. Sem perceber em momento algum que era a porta. Não sentiu perigo. Não sentiu dor. Nem sequer a tontura, das dezenas de voltas seguidas que fez, como se num carrossel estivesse, feliz.

Abriu os olhos. A roupa era a mesma, os rolos do cabelo intactos. Mas a pele suada, demasiado suada. Ainda no carro, ouviu vozes. Desligou o rádio. Só queria dormir. Voltou a abrir os olhos. Um vulto chamava-a. Não sabia bem onde estava. Às vezes sabia. Quando por segundos a memória não a atraiçoava, reconhecia a garagem e não o lugar e então tentava resolver. Mas esquecia-se logo como ligar o carro. O vulto ali e ela sem perceber porque raio falava aquela língua imperceptível. Que se lixe, não te percebo. E sentada no lugar do condutor, adormeceu outra vez.

Sorriu mais uma vez. Ah, o som da caixa de supermercado. “Pip, Pip. Pip.”

Ouviu ao longe, mas sabia bem do que se tratava. Missão cumprida. Era certo que assim que abrisse os olhos estava a passar um pacote de leite no no tapete, depois arroz e legumes,“próximo cliente!”, “Pip. Pip. Pip”. Ouviu o seu nome. Tinha sido chamada à recepção, levantou-se repentinamente e abriu os olhos. À sua frente afinal, não era um novo cliente, mas sim o filho. O pip, pip, continuava. Uma nova imagem a construir-se à sua volta à medida que pestanejava. Um quarto mostrava-se.

Não percebeu como foi do carro para aquele quarto. Piscou os olhos, até ver bem. Viu o quarto, uma sombra bonita e os dois filhos. “Mãe?” Ela sorriu e perguntou pelo carro. “Ficou todo amolgado. De que se lembra?” E entre a milésima gargalhada “lembro-me de tudo, menos de chegar aqui”. Com a voz tremida avisou-a. “Mãe, foi um AVC”. “Não filho, foi o melhor dia da minha vida”. Sorriu. “Vai jantar, vai, não te agarres a pieguices, até amanhã”. Fechou os olhos, fê-lo de propósito, e feliz, morreu. No dia em que soube que ia viver para sempre, morreu.

  • Imagem: Filipe Domingues
  • Filipe Domingues
  • Nascido e criado na verdadeira city of light… Lisboa. Desde pequeno que a minha veia artistica/visual se revelou. Com apenas 12 anos, transformei a rua de Lisboa onde vivia numa pequena Hollywood, ao filmar várias curtas.

    Formado em Publicidade no Instituto Politécnico de Lisboa (1999 a 2004), onde tive o primeiro contacto sério com a fotografia. Completei o meu amor pela fotografia analógica com um curso de fotografia analógica no Instituto Português de Fotografia (2007). Apesar de fotografar em formato digital, é com a película que me sinto realmente realizado.

    O que mais gosto de fotografar são pessoas, e toda a história de vida que trazem consigo.

    Criei ainda a “I’m Not Perfect zine” uma revista de fotografia online, que vive da participação de fotógrafos de película, de todo o mundo.

    Para além de fotógrafo, sou Senior Art Director na Mccann Erickson Lisboa.

  • Palavras: Maria Sales Caldeira
  • Maria Sales Caldeira
  • Maria Sales Caldeira. Nasce na Madeira, e com a mania que escreve desde os 6 anos, escreveu a sua primeira reportagem, deitada debaixo da mesa da sala de casa da avó. A reportagem era sobre os vizinhos daquela rua, e não se pode dizer que fosse memorável. Mas foi aí que decidiu que queria ser Repórter. Até ao dia em que entrou para Comunicação Social e percebeu que afinal não era nada daquilo que a fazia feliz. No último ano do curso teve uma cadeira que lhe mostrou a luz. Marketing e Publicidade. E a partir daí uma nova certeza, “quero ser copy!”E assim foi. Estagiou na Wunderman, onde fez o seu primeiro copy oficial: “Europcar, a boleia está garantida, a aventura também.” Juniorziou-se na JWT onde fez o seu primeiro Headline controverso “Queres um toque? A Alicia Keys”; Criou músculo na Nossa, onde deu pela primeira vez, e de borla,, a cara a um anúncio. E agora está na Partners, onde entra todos os dias às 9h30 em ponto, e onde tenta escrever textos dados ao humor (como este, das horas, hilariante). E assim, acabo de assumir que falei de mim na 3ª pessoa.