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Artur é um chato. Mas não é chato de feitio, coitado. É chato de profissão. Houvesse melhor palavra para designar alguém que tenta vender cartões de crédito a quem anda a ver montras ou a esmoer o almoço, e teria todo o gosto em usá-la, caro leitor. É que ninguém gosta de chamar alguém de chato sem razão – é chato, lá está. Acontece, infelizmente, que não há melhor palavra. O que é chato para Artur.

Mas Artur nem tem culpa de ser chato. Não foi ele que escolheu ser chato, foi ser chato que o escolheu a ele. Artur vem de uma longa família de chatos: filho de um afamado vendedor do Círculo de Leitores e de uma operadora de call-center, neto de demonstradores de aspiradores, bisneto de caixeiros-viajantes… no caso de Artur, ser chato é de família. São gerações e gerações de intrusão, de chatice, de “Desculpe, tem 5 minutos?” e de “Olá, jovem! Deixe-me só…”.

E foi precisamente depois de dois “Olá, jovem! Deixe-me só…” que Artur veio parar a esta fotografia.

Decorria o Verão de 1981, uma altura de intenso calor, que como o leitor calcula, é algo particularmente chato para quem, como o pai de Artur, andava porta-a-porta, escada-acima-escada-abaixo, nos prédios do Cacém com uma Larousse a tiracolo, um Mestre Cozinheiro, três romances de Konsalik e um exemplar da Burda (para meter conversa com as senhoras de idade).

Decidiu chatear alguém num 3°esquerdo. Chegou à porta esbaforido e a pingar (o que é chato como primeira impressão) mas rapidamente alcançou a bomba da asma, enxugou a testa, pôs o seu sorriso mais vendedor e tocou à campainha. “Olá, jovem!”, atirou confiante. “Deixe-me só…”.

A rapariga asiática, de olhos e sorriso rasgados, que lhe abriu a porta, fechou o sorriso e a porta no mesmo instante. Talvez por odiar ser chamada de “jovem”, ou simplesmente por não estar para se chatear no seu dia de folga – o dia de não chatear ninguém.

Mas aqueles segundos entre o seu “Olá” e o adeus dela, foram suficientes para pôr o coração do pai de Artur, já acelerado dos seis lances de escada, a bater ainda mais depressa. Estava apaixonado. Tocou novamente (só uma vez, para não ser chato). Chateada estava ela, mas lá abriu e deixou-o falar. Cortesia profissional.

Não podia ter corrido melhor. Vendeu-lhe o Corações Perdidos de Konsalik – um thriller recheado de passagens eróticas de fino recorte, que o vendedor leu enfaticamente àquela que 12 minutos e 9 meses depois viria a ser a mãe do seu filho Artur.

Motivado pela nova condição de chefe de família, o pai de Artur tornou-se rápida e oficialmente no maior chato de Lisboa e arredores: Vendedor do Ano. Como prémio, recebeu das mãos de alguém ainda mais chato uma viagem com destino à escolha.

Escolheu Hong Kong, para que a mãe de Artur pudesse visitar a família com quem só falava ao telefone quando não estava a chatear alguém com uma sondagem de “3 minutinhos” ou com um mês grátis de SportTV cheio de asteriscos.

Adorou a cidade. Era o sonho molhado de qualquer vendedor porta-a-porta: milhões de pessoas a viver em cima umas das outras… e em prédios com elevador! Um filão para os seus Konsaliks. Pediu transferência.

Vinte e tal anos mais tarde, andava Artur na sua vidinha quando sentiu que era chegada a hora de ser chato como o pai. Há quem oiça o chamamento de Deus, Artur ouviu o chamamento de um vendedor de cartões de crédito num shopping. O que também funciona.

Mas começou mal. Eram “nãos” atrás de “nãos” e Artur não conseguia impingir um cartão que fosse. Um pesadelo.

Questionava então a sua vocação para chato e pensava na vergonha que o seu pai (capaz de vender um livro de Konsalik ao próprio) estaria a sentir, quando reparou na longa fila do cinema que ameaçava tapar-lhe o expositor (o que seria ainda mais chato para o negócio). Foi então que no cartaz negro do filme viu a luz para os seus problemas. “Isso!”, pensou triunfante.

Passou a noite a fazer um fato, não de Konsalik, como o leitor poderia supor, mas de Batman. Porque se há gajo chato é o Batman (um tipo que não desiste dos seus afazeres, nem com Gotham inteira a tratá-lo pior que ao Figo em Camp Nou). Além de que impõe respeitinho e é lixado para a porrada (o que para um chato dá jeito, sobretudo com clientes mais chateados). “Agora é que vai ser vender”, dizia Artur enquanto fazia músculo em frente ao espelho.

Saiu de casa naquela manhã com a capa preta a esvoaçar atrás de si, todo ele bazófia.

Mas assim que pôs o pé na rua viu-se cercado por duas senhoras de meia-idade muito sorridentes. Artur sorriu-lhes de volta.

“Olá jovem! Deixe-me só…”, começou uma delas.

As palavras atordoaram-no. Hipnotizado, olhou-as nos olhos e viu ternura, benevolência e coelhinhos a saltitar em prados verdejantes. Testemunhas de Jeová.

Nunca tinha visto uma, mas o seu pai falara-lhe deste tipo de chatos: astutos, de uma simpatia devastadora, atacavam sempre aos pares.

Mas era tarde demais. Artur debatia-se como podia, sem querer ser chato: “não, obrigado…”, “estou com pressa…”, “não acredito em…”, mas elas retorquiam com dizeres que diziam ser da Bíblia e atiravam-lhe para as mãos exemplares da Sentinela e do Despertai!.

Esteve mais de 15 minutos nesta guerra, até que por um canto do olho viu a sua oportunidade. O sinal tinha acabado de abrir e, se fosse rápido, conseguiria chegar ao outro lado da estrada sem que o pudessem seguir. Arriscou.

As testemunhas estiveram prestes a testemunhar um atropelamento, mas Artur escapou por um triz, às duas senhoras e a uma Nissan Vanette desalvorada.

Como um herói num filme, Artur não olhou para trás. Não as viu a dizer adeus do outro lado da rua, com ar angelical. E só reparou que ainda levava a Sentinela e o Despertai! consigo quando olhou para as horas. Estava atrasadíssimo.

“Chatos, pá!”.

  • Imagem: Emanuel Serôdio
  • Foto_Emanuel
  • Emanuel Serôdio, 29 anos, criado na Praia da Areia Branca, onde cresceu até aos 18 anos. Veio para Lisboa para tirar a licenciatura em Design de Comunicação no IADE, acabando por se fixar na cidade que afirma ser a sua preferida. Trabalha na Leo Burnett Lisboa desde 2011 desenvolvendo projectos para o Banco Privado ATLANTICO, Phillip Morris International, CP, EDP, Samsung, entre outros.

    Anteriormente trabalhou na Santa Fé Associates onde esteve 3 anos com projectos para o grupo Sonae, Ibersol, Optimus Clix, Danone, Continente, Worten. Na Leo Burnett Lisboa tem conquistado alguns prémios e distinções em Cannes; D&AD; CCP; El OJO; Youn Lions (2º Lugar em 2012; 1º Lugar em 2013).

  • Palavras: Pedro Lourenço
  • Pedro Lourenço
  • Bom tipo, cabelo estranho, olhar penetrante, amigo do seu amigo.
    Nasceu em Lisboa, vive em Berlim, trabalha para agências de 3 cantos do mundo e conta chegar ao quarto canto em breve.
    Que se lembre, deu os primeiros passos como criativo em tenra idade, nuns patins de Lego improvisados que deixaram profundas marcas na memória da sua mãe e num chão de madeira acabadinho de encerar. Tamanha genialidade valeu-lhe então, não um leão ou um lápis dourado, mas o chinelo. Um merecido prémio, com que voltaria a ser agraciado inúmeras vezes por outras ideias arriscadas e inovadoras.
    A oportunidade de trabalhar em publicidade apareceu-lhe, ironicamente, num anúncio de jornal, enquanto fazia recortes de imprensa para uma agência de RP. Despediu-se na hora, começou na McCann Lisboa, e depois disso trabalhou para a JWT, CP+B Londres, Sid Lee
    Amesterdão, VCCP Berlim, AKQA, entre outras.
    Ao lado de gente imensamente talentosa, criou campanhas para marcas como a Nike, Adidas e Vodafone, que acabariam por ser reconhecidas, não com o chinelo, mas com vários troféus nacionais e internacionais.

    Para além de publicidade e autobiografias na terceira pessoa, escreve também (com total desrespeito pelo novo acordo ortográfico) crónicas, postais aos amigos, notas no frigorífico e posts no facebook.
    O seu mais recente trabalho é um dicionário online escrito por si e ilustrado pela namorada alemã – um projecto de extrema fofura para aprenderem a língua um do outro, que um dia vai dar um livro ainda mais fofo.