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  • Olá. A minha mãe morreu.

O não “click” da máquina fotográfica do senhor fez-me perceber o aviso da mãe. Fiz asneira.
Vi-lhe os olhos espreitarem sem tapete por cima do horizonte da máquina, a olhar para mim com mais curiosidade do que a lente. Nem ele nem a máquina disseram nada durante um tempo. O suficiente para passarem mais 2 camiões pela estrada. Camiões compridos o suficiente para demorarem mais de 4 piscares de olhos a passar. Caixas de carga grandes o suficiente para levarem umas 3 casas a reboque.

Agora que saí de casa, ela parecia-me injustamente pequena e o mundo arrebatadoramente grande. Demasiado grande para me caber nos pulmões. E eu que jantava com vista para o mundo todas as noites, devia estar descansado com a ideia de grandeza que fazia dele e dominá-lo como um pionés, mas não sabia como. Também não sabia que ele não era tão amarelo como o mapa da parede, nem tão pouco o que dizer ao senhor que está a olhar para mim, a não ser que não era isto que devia ter dito, mas nem isso disse.
“Toda a gente tem de morrer, mas as pessoas são tontas e não sabem como aceitar a evidência das coisas. E para não lhes tirares o tapete, guardas para ti a minha morte” dizia a mãe enquanto me prendia os suspensórios às calças todas as manhãs. Eu deixava-a prender-me os suspensórios apesar de já o conseguir fazer, porque sabia que era tudo o que ela conseguia fazer. A evidência das coisas, ao contrário dos milhares de livros que a mãe me ensinou a ler, não me custava a entender.

Disse-o como se dissesse que o sol nasceu. Mas agora que a minha mãe morreu, não consegui guardar para mim a morte da minha mãe. O combinado era dar-lhe um beijinho na testa – que eu dei – puxar-lhe a pele dos olhos para baixo – que eu puxei – puxar-lhe o lençol para cima do rosto – que eu puxei – ir até à beira da estrada – que eu fui – e pedir para me levarem até à igreja, para pedir ao senhor do céu descanso à alma dela e um rumo para a minha. Ao senhor da terra que parasse para me dar boleia devia dizer apenas “leve-me até à igreja mais próxima”. Sem me esquecer de o cumprimentar – que não esqueci.

  • Estás bem rapaz…? Perguntou o senhor preto vestido de preto, depois de guardar a máquina na mochila preta. Como continuou de cócoras não me pareceu que se fosse embora, por isso achei por bem responder:
  • Sim.
  • O que estás aqui a fazer?
  • A pedir boleia para me levarem à igreja. Leva-me à igreja? A de São Lázaro não é longe e não causa transtorno no caminho de quem só está de passagem.
  • É lá que está a tua mãe?
  • Não. (Será que tenho de explicar? Vou explicar). A minha mãe morreu (bolas, lá disse eu outra vez), por isso já não está cá, eu tenho de ir à igreja para ela estar em paz no sítio para onde tem de ir. E para dar um rumo à minha alma.
  • A tua mãe não te disse que para pedires boleia tens de levantar o polegar, assim?
  • Estava a ver o mundo e esqueci-me.
  • Foi uma sorte eu ter parado.
  • O que é sorte?
  • É algo bom que nos acontece por acaso.
  • A mãe dizia que nada acontece por-alguma-coisa. Tudo, simplesmente, acontece.
  • Para quem não sabe nada sobre a sorte, pareces saber tudo sobre a vida.
  • Sorte era se me levasse à igreja.

Os olhos ficaram-lhe mais confortáveis no rosto e deu um respirar a rir que me deixou confortável o suficiente para aceitar entrar no seu carro preto.

  • Porque é que o seu carro não é um camião?
  • Porque não sou camionista.
  • Não tem de transportar nenhuma carga?
  • Aquilo que verdadeiramente nos pesa, transportamos dentro de nós.

Hum… Talvez seja por isso que o disse. Para não transportar a carga dentro de mim. Comecei a ter força suficiente para a enxada aos 4 anos e desde aí nunca mais deixei de cuidar da horta e de trazer a comida do quintal para a panela e da panela para a minha mãe. Mas não tinha força para carregar a ausência dela. Se calhar também era tonto e não aceitava a evidência das coisas. Ou, se calhar, a morte da minha mãe é algo que não me pesa verdadeiramente.

  • Um dia não haverá mais igrejas rapaz. As pessoas não precisam delas.
  • Existem muitas coisas que as pessoas não precisam. Tal como há coisas que as pessoas precisam, mas não existem. Como a harmonia ou hortas nos quintais. Já foi a uma igreja? Eu não.
  • Já estive perto de muitas igrejas de muitos países. Vi igrejas feitas de ouro e outras de ruínas. Mas só me cheguei perto o suficiente para fotografar. Para ver a ausência de sangue no rosto de quem escolhe ficar refém da fé à liberdade, nunca precisei de entrar em nenhuma.
  • Não acredita no poder de acreditar? É libertador.
  • Acredito no poder da minha máquina fotográfica. É com ela que luto pela liberdade.
  • Eu nunca andei à luta. A mãe dizia que a liberdade é algo com que nascemos, mesmo se nascermos sem um pé. Mas nunca me deixou sair de casa.
  • Tu nunca tinhas saído de casa antes rapaz? Falta um ingrediente à formula da tua mãe: experiência. E essa só ganhas fora de 4 paredes.
  • Já tive vontade de sair, mas tomei a liberdade de ficar. E não era por a minha mãe mandar. Se eu saísse a correr ela não me conseguia apanhar. Mas nunca tive aonde chegar
  • Chegámos à igreja. Posso tomar a liberdade de entrar contigo rapaz?
  • Liberdade é não perguntar. Mas vamos a correr. A alma da minha mãe precisa de descansar.
  • Imagem: Diogo Parrinha
  • Diogo Parrinha
  • Diogo Parrinha, director de arte no digital, tem no seu curriculum passagens pelas agências FullSix Portugal, BBDO Portugal, Adsoul, AKQA Amsterdam e, mais recentemente, Hi-Res! New York. Considera que um criativo deve ser, acima de tudo, um contador de histórias, e encontra na fotografia mais do que um hobbie, uma forma de marcar os momentos da sua própria história.

  • Palavras: Susana Lourenço
  • Susana Lourenço
  • Safra de 86. No rótulo tem a Brandia Central, a McCann Lisboa, a FunnyHow e recentenmente criou o seu próprio lugar para criar, a Oland, que assina como uma Denominação de Origem Criativa. Espera envelhecer como o vinho.