DS2

Foda-se

Qualquer caminho pode ser dantesco.

Até a viagem à casa de banho, desde que no meio da madrugada.

Ou no meio de um clássico.

Eu cá sempre mantive a teoria que a bexiga conspira contra o resto do corpo.

E quem acredita em passos fáceis acaba com uma casa IKEA e uma personalidade a condizer.

Mas que isto seja apologia de nada.

Cada um sabe de si e a estrada é de todos.

E apetece-me acabar aqui.

Com uma punchline e a poeira de palavras sacudidas por memória muscular.

Mas há mais estrada para andar.

Ainda mal começámos.

A estrada tem destas coisas e a coisa vai-se dando.

Ainda na casa da partida, onde o relógio é mudo, vejo-nos perante dois pilares opostos.

Entre eles, no meio de nós.

Diria mesmo que é uma coisa arquitectónica; só funciona se as forças convergentes e divergentes estiverem em harmonia.

Isto vindo de alguém que estudou letras e vive de vender tampões e leite pasteurizado.

Portanto, que isto seja apologia de nada e manual de estudo nenhum.

Vamos caminhando de mãos dadas, para que a coisa pareça menos assustadora.

Com calma, que já não vou ao ginásio há mais de três quinze dias.

E isto não é um sprint; é uma maratona de vários abecedários condensados em sentido.

Menos bélico e mais belo, assim esperamos.

Portanto vá, ponham aqui a vossa mão na minha.

E eu vou-me enlaçando com quem por aqui passar.

Vamo-nos deslargando quando os passos tomam outros rumos; agarrando outros dedos.

Que 1.000 palavras é muito tempo.

É muita conexão, mesmo sem sermos amigos de Facebook.

Porque me interessa pouco onde vocês veraneiam.

E interessa-vos pouco que tipo de comida eu instagramo.

Vamos andando, então.

Dizia ali em cima que vejo isto em opostos.

Reparem que quando disse “vamos andando”, não quis necessariamente dizer “vamos em frente”, qual manipulação geográfica da nossa vontade colectiva.

Às vezes, é preciso dar uns passos atrás.

Uma história agora.

Daquelas que nunca vão figurar num livro escolar mas com veracidade que encantaria até o falecido Saraiva, pela sua cândida natureza.

Não o Saraiva, esse era Salazarista e a mim não me engana.

A história.

Verdade verdadeira.

O meu bisavô foi um dos primeiros da vila a ter carro.

Numa altura em que a minha família ainda não tinha desbaratado gerações de baixa nobreza em partilhas, amantes e divórcios, qual novela mexicana.

O senhor instrutor – na altura as pessoas eram senhores e senhoras – ensinou-lhe as manobras importantes à época.

Presumo que, maioritariamente, desviar-se de carroças, rebanhos e procissões.

Chegada a altura de aprender a recuar, o meu bisavô declarou que não tinha adquirido a viatura para andar para trás.

O ataque de importância valeu-lhe um veículo que nunca veiculou; para sempre estacionado debaixo de camadas de orgulho e ferrugem, numa garagem escura e húmida.

À altura, um lagar convertido a modernices.

Foi com esta história que a minha mãe me ensinou que, às vezes, há que recuar, andar de trás para a frente, de um lado para o outro.

Às vezes com as mãos na cabeça, em modo barata tonta.

Às vezes com a cabeça nas nuvens.

Interessa o caminhar, o movimento.

O movimento imprime coragem e sangue pelas veias.

Aquece a vontade.

Ajuda a passar por entre os pilares que, de outra maneira, serão sempre gigantes a balizar a nossa existência.

Há que ser mais bola de futebol e menos jogador da Selecção Nacional no último mundial.

E agora sim, sinto que quase lhe apanhámos o jeito; nesta coisa de caminharmos juntos.

Uma pessoa anda sempre mais contente quando pode meter uma bucha futebolística.

E vai-se andando.

Balançando o peso do corpo entre a esquerda e a direita, o céu e o chão, a liberdade e o apego, o bom e o vilão.

Como se estivéssemos a tentar misturar-nos por dentro.

Os nossos fantasmas encarnando-se em partes diferentes.

Uns a assegurarem-nos que somos mais do que o vaso inicialmente formado por dois zigotos.

Uns a assustarem-nos até molharmos os nossos lençóis interiores.

Como digo, às vezes ir à casa de banho de madrugada pode ser dantesco.

Que isto seja apologia da luz de presença, sem julgamento de idade.

Mas reparo agora que, na minha verborreia semi-condicionada, desconsiderei por completo a pessoa por detrás da lente, que olha a estrada de frente.

Se calhar, este é o sítio em que tal pessoa veraneia.

E o meu medo confesso e considerações escatológicas em nada se sobrepõem à sua visão solar de bolas de praia, daquelas de encher a plenos pulmões.

Que fique aqui registado que tenho tudo a favor de cocktails com sombrinhas coloridas.

E o rádio no máximo a saltar entre Destiny’sChild, Zé Cid e Bipolar Sunshine.

Mas tive de seguir o meu caminho; sabes pessoa da estrada em frente da lente.

Tu que, neste momento, és tão intangível para mim como a quinta dimensão.

Tu que és a aula de físico-química onde, mais uma vez, estas duas mãozinhas que Deus me deu, partiram mais um tubo de ensaio.

Sempre fui pouco dada a ciências exactas porque nunca tive jeito para me espraiar nesses campos.

Não que não haja espaço para o fazer.

Acredito que a criatividade, o interesse e a capacidade de espraiar o ser são coisas para se infiltrarem em todo o sítio, qual nódoa de vinho escuro.

Até em folhas de Excel.

De resto, ainda estou para descobrir qual a diferença entre quadrados de Excel coloridos e a obra de Mondrian.

Vá, a andar rápido por cima da heresia, que estamos a acabar e era uma pena perdermo-nos agora por miudezas.

Que este último troço não seja a apologia do adeus tornado fim.

O fim da página é só o fim do aqui e, no final, interessa pouco o velho adágio entre imagem e palavras.

Isto bem medido, há número para todos.

Mais atalhos e desvios, a florir e a soprar-nos da Rosa dos Ventos.

Porque já dizia o outro:

Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar.

  • Imagem: Daniel Soares
  • Daniel Soares
  • Actualmente na R/GA de Los Angeles, sou um criativo e director de arte que tenta criar trabalho com significado e com impacto na vida das pessoas. Acredito em fazer acontecer. Nos projectos pessoais. Em tudo o que seja feito com o coração e com paixão. Acredito nos detalhes. Numa secretária limpa. Em abordagens disruptivas. No trabalho árduo. Não acredito em jargões de Marketing. Não acredito em FOMO. Não acredito em desculpas. Acredito em tocar no coração das pessoas, em cada trabalho que faço. É por isso que acordo de manhã. E raramente me deito cedo.

  • Palavras: Sara Soares
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  • “Tu és a coisa mais séria que já me aconteceu”
    Teresa Fraga – Mãe

    “You’re my Google”
    Maria Inês Leiria – Teammate, Housemate, Friendmate and Pain in the Ass Extraordinaire

    “Sara has an amazing taste in jams”
    Sam Bird – FullSIX London