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Até àquele dia, nunca tinha visto o mar.

Bom, na verdade já o tinha visto, como também tinha visto batalhas no espaço, macacos a conversar com ursos, fantasmas a dançar.

Sentado na carpete coçada da minha avó, pernas cruzadas, carrinhos capotados aos pés, cabeça inclinada para cima, tinha viajado por todo o lado. Mas aos olhos faltava-lhes o cheiro, o paladar. Saber que a lua não sabe a queijo, confirmar que a selva usa perfume.

Não se descobre tudo sempre no mesmo lugar.

Por isso, quando fiz treze anos, comprei um bilhete de ida e volta e fui ao litoral.

Aos primeiros solavancos do autocarro, no vidro de trás, o pai agitava o boné e a mãe segurava os meus irmãos, não fossem eles apanhar o próximo. Pó nos corpos e nas caras, cheiro à pele rasgada dos assentos, espuma à vista. Um casal de velhos embonecados a olhar-me. Éramos os únicos a fazer companhia ao motorista. Nem o rádio funcionava, por isso, lá à frente, o senhor assobiava. Cá atrás, o velho a perguntar-me se também ia ao hospital eu Não, vou ao mar. E eles Está bem, olha que se apanha muita curva. E eu Não faz mal, que nunca tinha imaginado o mar direito.

O mar nunca mais chega. É preciso atravessar serras e rios, ver muitos carros e algumas motas. Ovelhas a pastar e pessoas a tapar o sol. Só depois de muitas horas começamos a ver um azul que não é o do céu a aparecer junto à terra. A velha apontou-mo e eu colei-me à janela. Lá estava ele. Entre os prédios, língua de fora. Fizemos uma grande curva e ficou escancarado à minha direita. Um azul às cavalitas do outro. O de baixo a contorcer-se do esforço. Ondas a entrar na brincadeira.

Tem mesmo muitas curvas, dizia eu. Mãos espalmadas no vidro, saída de emergência na testa.

Parámos. Os velhos a descer, a levantarem as mãos cheias de veias, sorrisos, as melhoras, obrigado, vai com cuidado, não te chegues à beirinha e eu

À beirinha de quê?

Nem tive tempo de pensar na advertência porque, mal inspirei, pela primeira vez, cheirei o mar. E então saí, nariz na frente. O motorista assobiou, fechou a porta e arrancou. Eu fiquei, como na sala da minha avó, de cabeça erguida. Mas de olhos fechados. A maresia a tirar-me a fome do almoço, a convidar-me a entrar.

A paragem ficava no alto de uma falésia, de onde se avistava um enorme areal, às pintinhas de várias cores. Pernas esticadas, as ondas a rebolar como enormes cães brancos na erva.

Comecei à procura de caminhos para chegar ao mar. Como seria? Será que teria de entrar pé ante pé ou deveria mergulhar de cabeça, já dali? Isso sim! Que melhor maneira de conhecer o mar? Também já vi muitos a voar, podia resultar. Contrariando a velhota, cheguei-me à beira. Os joelhos tremeram e terra escapou-se debaixo dos sapatos. Pedrinhas a ensinar-me a saltar. O vento a despentear-me a franja e logo uma voz aos gritos

“Olha lá! Não vais saltar, pois não?”

Acho que lhe disse que sim, sabendo que não. Como se eu fosse dois e o mais corajoso se tivesse posto à frente do outro, que só queria voltar à carpete.

“Pois, mas não podes. Queres matar-te?”

Eu não, eu queria era viver.

“Mas se saltas daí, és capaz de morrer. Porque é que não mergulhas lá de baixo?”

À minha frente tinha um rapaz homem. Ou um daqueles homens que são sempre rapazes, não sei. Não devia ter idade. Quando me chamou a atenção, percebi que o mar também podia ser assustador.

“É a primeira vez que vou mergulhar, queria que fosse em grande.”

“Todos os mergulhos são em grande, descansa. Mas então, é a primeira vez que vês o oceano?”

“Não, já o vi muitas vezes.”

“Ah.”

“Mas nunca o tinha cheirado. E nunca o tinha ouvido assim.”

“Vivias num búzio, era?”

“Não, vivia numa casa.”

E ficámos a olhar-nos, o mar a rir-se de nós. Repeti que queria mergulhar e ele disse que me iria ajudar. Descemos mais um pouco, num carreiro de terra, até chegarmos ao topo de um penhasco. Era eu distraído com gaivotas e ele, de repente

“Aqui ‘tá bom.”

Não tínhamos descido assim tanto.

“E agora?”

“Agora chegas-te ali e saltas.”

“E a roupa?”

“Pois, convém tirares a roupa. Tens calções de banho?”

“Não.”

“Então vais todo nu.”

“Todo nu?”

“Não querias que fosse em grande?”

“Sim.”

“Não há nada maior que isto, rapaz.”

“E depois? Não sei nadar.”

“Respira fundo e salta. Quando chegares à água, continua a suster o fôlego. Vai estar fria. Vais sentir que ela te puxa para baixo, começa a dar às pernas, como se te soltasses de umas calças sem usar as mãos. Com os braços, voa. Até a cabeça sair para o sol. Respira fundo, e vem com a corrente. Aproveita cada segundo.”

“Pois… Só se vive uma vez, não é?”

“Sim, mas sobrevives muitas.”

Disse-o a mastigar qualquer coisa. Olhava para as unhas, muito mais interessantes do que o meu medo.

Virei-lhe as costas. Olhei para as ondas, para o fundo dos meus terrores. Tirei a roupa e engoli todo o ar que me cabia nos pulmões.

“E depois?”

Tinha o meu pai à frente, à lareira. Não estava no topo do penhasco, não estava no ar, a gritar. Não estava num mundo de sal, não estava de mãos enterradas na areia, não estava com frio, não estava aos espirros no autocarro, não estava a ouvir os assobios do motorista, estava em casa. A sorrir. Como um homem.

“Depois mergulhei.”

“E que tal?”

“Nem consigo explicar.”

“E o gajo?”

“Não sei. Olhei para cima quando vim à tona, mas não o vi.”

“Como é que ele era?”

“Era simpático. Barba comprida, negra. Óculos escuros. Braços pintados. Tinha roupa colorida e uma bóia à cintura.”

“Hmm… Uma bóia.”

Sorriu.

“Isso não era homem nenhum, filho. Era a coragem a falar contigo.”

  • Imagem: Cátia Tomé
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  • Cátia Tomé, Designer Gráfica, 26 anos de Lisboa, e a cara por trás do projecto “According to Panda”.

    Apaixonada por cores, padrões, dinossauros e flores, e com o sonho de correr o mundo.

  • http://www.accordingtopanda.com
  • Palavras: João Madeira da Silva
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  • Nasci a 13 de Março de 1983, possivelmente a uma sexta-feira, e aprendi a ler com a minha avó e uma caixa de Pensal. Licenciado em Comunicação Empresarial pela Escola Superior de Comunicação Social, iniciei a carreira publicitária como Executivo de Contas na Euro RSCG Lisboa, em 2006. No final desse ano mudei-me para a FUEL, onde, dois anos depois, comecei a trabalhar como Copywriter, Entre 2008 e 2011 fiquei três vezes em 1º lugar no Concurso Jovens Criativos LAS /Corbis e em 2º lugar nos Jovens Criativos do Eurobest. Em 2011, cheguei à BBDO e em 2013 regressei à Havas, Comecei 2015 n’ O Escritório onde me divirto todos os dias. Durante este tempo, desenvolvi ideias para Continente, Worten, Pizza Hut, Volvo, Mercedes, BES, Galp, Jumbo, Santa Casa, ZON, Optimus, NOS e Super Bock, entre outras, escrevendo, ao mesmo tempo, para o “5 para a Meia-noite”.

    Depois de iniciar e encerrar uma Associação Juvenil e um Grupo de Teatro, continuo a escrever livremente. Guardo na memória uns inesquecíveis 1º e 2º lugares no Concurso Literário da Escola Preparatória, com poemas sobre o mar.