Sabem qual é a primeira coisa que faço ao acordar?

Fingir que estou a dormir.

E deixo-me ficar assim quieta a enganar o meu próprio coração com minutos de apneia que podiam ser horas eternas não fosse a minha mãe obrigar-me a levantar.
A minha mãe não percebe que quando o meu corpo se levanta a minha alma continua estendida no chão, a desistir, lentamente a desistir. Pois se nasci apenas sobra, migalha de um resto já escolhido… o fruto do meu futuro já mais será colhido!

Vou contar-vos a minha história mas começo pelo fim. Eu morri, para mim.

Os dias que antecederam à minha morte são a sombra do tempo que se passeia de braço dado com a solidão. O meu nome é peste negra, o meu nome é bílis, o meu nome é tudo o que arranha na língua, o meu nome não fica bem a ninguém. O meu apelido é Descanse Em Paz.

Quem tem vida a brotar por dentro sabe que o sol sorri, os passarinhos cantam e o vento penteia o pensamento. Eu sou o antagonismo, a agonia, o paradoxo, a hipérbole da dor. Para mim a vida é apenas uma figura de estilo.

Se o mundo fosse uma manta eu era um retalho. Se a vida fosse um vestido eu era a traça que fez dele um trapo sem graça.

Eu sou uma pastilha elástica na sola de um mocassim. Sou um verniz barato. Sou uma garrafa vazia. Sou um prémio de consolação. Sou uma estatística. Sou uma paixão de verão. Sou um artigo de marca branca. Sou um perdido, não sou um achado. Sou uma metade. Sou uma desilusão. Sou um quarto minguante. Sou uma hipoteca. Sou abstenção. Sou uma devolução ao cliente. Sou uma cerveja sem gás. Sou um empate técnico. Sou uma gravidez psicológica. Sou um fora de jogo. Sou um bluff. Sou uma cesariana. Sou um lado B. Sou uma falsa partida. Sou um professor substituto. Sou uma dízima finita. Sou uma falha de rede. Sou um buraco na parede. Sou uma casa de banho mista. Sou uma meta conspiração. Sou uma carta anónima. Sou uma mulher-a-dias. Sou um dente do siso. Sou um palhaço pobre. Sou uma erva daninha. Sou uma ameaça de bomba. Sou uma notícia breve. Sou um atestado de pobreza. Sou um iogurte fora de prazo. Sou um livro de bolso. Sou um playback. Sou uma madrasta. Sou um T zero. Sou uma remistura. Sou uma imitação. Sou um pseudónimo. Sou um c sem cedilha. Sou um h mudo. Sou uma rua sem saída. Sou uma nota de rodapé. Sou um plano contra picado. Sou um recibo verde. Sou um mini-prato. Sou uma fotografia desfocada. Sou o negativo do positivo. Sou um suficiente menos. Sou as sobras do jantar de ontem. Sou as palmadinhas nas costas. Sou uma esmola. Sou o último classificado do Festival da Canção. Sou o pior episódio dos Simpsons. Sou um sorriso amarelo. Sou um peido com molho. Sou um risco ao meio. Sou um mal entendido. Sou um capachinho. Sou um silêncio constrangedor. Sou uma meia de cada cor. Sou uma tecla preta. Sou uma camisola do avesso. Sou uma cama por fazer. Sou uma nódoa na gravata. Sou uma língua morta. Sou um governo provisório. Sou uma tara perdida. Sou uma actriz secundária. Sou uma noite mal dormida. Sou uma metástase. Sou um pêlo encravado. Sou uma carta extraviada. Sou uma guerra-fria. Sou um cão vadio. Sou um romance inacabado. Sou um ordenado mínimo. Sou uma bandeira a meia haste. Sou uma ejaculação precoce…

Um dia peguei em mim e organizei a minha dor como quem arruma o armário quando muda a estação. Alinhei os pensamentos por cores, encontrei espaços vazios que nunca pensei preencher, afaguei a alma e puxei lustro ao ego. Dei-me o direito de findar e assim ganhei o direito de ser. Atribui-me total usufruto da minha liberdade pessoal. Foi aí que me senti livre, fresca e solta.

Este foi o dia em que nasci depois de ter morrido uma vida inteira.

A minha mãe chamou-me Maria, mas eu batizei-me Dolores. Pois se toda eu carregava as dores que me inflamavam os dias. E foi quando decidi morrer que a minha história começou. Era uma vez eu…

Hoje escrevo esta carta de despedida em que anexo um manual de suicídio com dicas úteis para pôr termo à vida. Um guia prático de sobrevivência para a morte, para quem quer findar de forma digna e funcional. Ferramenta essencial para qualquer cidadão, porque afinal só se morre uma vez.

Não tenham medo de agarrar na faca e cortar a raiva que vos corre nas veias. Não tenham medo de enforcar mentiras, envenenar verdades, pôr a cabeça no forno para arejar as ideias, não tenham medo de rebentar com os miolos, alguém há-de limpar…

É na vertigem da morte que sentimos o solavanco da vida.

E eu sou apenas um tetra pack. Sou o recheio do meu vazio. Sou poeta por um fio. Sou um coração intermitente. Sou eu e tanta gente… Sou um bosque por arder. Sou um mar vermelho. Sou uma agulha no palheiro. Sou uma centelha de vida. Sou um sorriso nervoso. Sou o primeiro dia de escola. Sou paisagem. Sou caminho. Sou uma história que se escreve devagarinho. Sou um arranhão. Sou o futuro que te dá a mão. Sou chão. Sou princípio, meio e fim. Não sou boa nem má, sou assim-assim. Sou conversas intermináveis. Sou amanhecer. Sou exactamente como tenho de ser. Sou atleta. Pessoa in_completa. Sou mulher e sou homem, sou o que eu quiser. Estou aqui para o que der e vier.

Venham monstros e tempestades, pode cair o céu e desabar a terra à vontade. Hoje trago armadura, sou livro de capa dura. Já não me doem tanto as minhas dores, prefiro doer de amores. Sei que tenho créditos para gastar e sei que a morte vive mesmo aqui ao lado.

Quando me apetecer partir basta cortar pelo picotado.

  • Imagem: Bruna Gonzalez
  • Bruna Gonzalez
  • A minha primeira abordagem artística aconteceu muito cedo, quando tinha apenas 1 ano e pintei a parede de casa com cocó.
    Fico contente por informar que, entretanto, encontrei outros materiais e técnicas.

    Young Creative em Portugal por 3 vezes consecutivas, trabalhei na BBDO Lisboa, Fuel e trabalho agora como directora de arte na Ogilvy&Mather Paris. Marcas como Perrier, Nestlé, Dove (com o projecto Legacy) e IBM (com a qual fui premiada no Festival de Cannes com a campanha de pósteres Think) fazem parte do meu portfolio. Actualmente, estou a co-realizar uma curta-metragem para a Cornetto e a desenhar no meu tempo livre.

  • Palavras: Catarina Henriques
  • Catarina Henriques
  • KATARI é Catarina Henriques ou Catarina Eu Fêmea, como gosta de se imaginar. Copy de profissão e baterista de coração. Uma rapariga regular com alguns picos de emoção às sextas-feiras. Mulher de palavras afiadas e baquetas em riste. Miúda singela que se auto-explica em formato poema:
    Eu tenho dois amores
    as palavras e os tambores.
    Às vezes penso com a tola
    outras vezes com a tarola.
    A minha arma é a baqueta
    mas também mato com a caneta.
    No meio está uma virtude qualquer
    que faz ressalto nesta mulher.
    Sou pessoa batente
    escrita em tinta permanente.
    Faço do bombo coração
    e se não bato com o pé, saio fora de mão.
    Para mim parar de escrever é parar de bater
    e parar de bater é parar de viver
    e parar de viver é parar de viver.

    K.