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Esta é a história do Hélder, um puto que teve a sorte de nascer num bairro rico, mas o azar de ser filho da pobre porteira.

Não que isso tenha mal algum, diziam os pais dos meninos que não eram filhos da porteira.

No entanto, contam-se pelos dedos de um serralheiro, as vezes que o Hélder foi convidado a entrar em qualquer outro apartamento acima do rés-do-chão.

Desde cedo o Hélder percebeu que era diferente dos outros putos. Não porque tinha uma perspicácia acima da média, mas sim, por não sentir pertença a lado algum.

No seu bairro rico, era o pobre filho da porteira.

Na sua pobre escola, era o menino rico.

Por isso mesmo, tanto no pátio da escola como no pátio do prédio, na hora de jogar à bola, o Hélder ficava esquecido para a baliza.

E que baliza essa. Gigante, várias vezes maior que ele e por isso, as bolas facilmente passeavam entre ele e os postes.

Quando o Gordo se dignava a aparecer na rua, o Hélder lá conseguia deixar a baliza para trás.

Mas, apesar do que se poderia pensar, isso não lhe trazia felicidade alguma. Bem pelo contrário.

A até então enorme baliza, como que por magia, minguava, tornando-se pequenina, tão pequenina, que era impossível meter qualquer bola lá dentro.

Desta vez, devido à sua perspicácia, o Hélder percebeu que não era só ao jogar à bola, que as balizas lhe minguavam.

Enquanto os seus vizinhos rosavam os rostos das raparigas, o Hélder passava-lhes mais despercebido que a carreira do Bruma no Sporting.

Os seus sapatos, gastos, eram de marcas que soavam parecido às marcas que calçavam os outros.

A sua escola aparecia no fundo do ranking liderado pela dos seus vizinhos.

Nas férias ia à terra, enquanto os outros aterravam noutro meridiano.

Os pais dos outros tinham empregos tão interessante, que constantemente os mesmos eram arrastados para conversas cuja única finalidade era mostrar quem tinha a maior pilinha.

Enfim, todo um cem número de situações, fizeram o Hélder perceber que ele estava a jogar o jogo da vida em modo difícil.

Felizmente para ele, a dificuldade motivava-o, dava-lhe pica.

Ao contrário daquilo que muitos de nós, na mesma situação sentiríamos, o Hélder não sentia inveja, ele sentia pena dos coitadinhos que tinham tudo e por isso não davam valor a nada.

O Hélder gostava de ser como era. Parte porque não era pessoa de pensar em “ses”. Ele era um mestre da regra dos 3 ãos. “Aceitação, preparação e acção”.

Por esse mesmo motivo, ele apontava, sem medos, às suas balizas diminutas. Conseguir vê-las, por mais que tivesse de franzir os olhos, dava-lhe uma reconfortante certeza que era uma questão de probabilidade até marcar golo.

Assim sendo, na escola, quando a matéria complicava, ele descomplicava-a à noite, na sua secretária, mascarada de mesa de jantar, na cozinha.

Rapidamente os tempos da escola passaram a pretérito perfeito. Tão perfeito que lhe valeram uma bolsa de estudo numa universidade privada por terras de Sua Majestade.

E assim, de um momento para o outro, a baliza diminuía novamente.

A porteira, mostrava-se preocupada, afinal de contas o Hélder nunca tinha saído do país e poucas vezes saiu da cidade desacompanhado.

Sem saber como nem porquê, de um momento para o outro, lá foi ele, para o desconhecido, na mesma qualidade de desconhecido, conhecendo apenas aquilo que o seu conhecimento empírico lhe permitia conhecer e sem conhecidos que lhe pudessem dar algum conhecimento.

Um reset total na sua vida.

Num momento em que a sua baliza estava quase do tamanho da baliza dos outros, lá voltou ela a caber numa mesa de matraquilhos.

Tudo o que ele tinha e conhecia, de pouco ou nada lhe servia neste novo nível.

Mas, como protagonista deste jogo, ele não se deixou abater.

Voltou-se, mais uma vez, para a regra dos 3 ãos e lá foi ele dobrar o Cabo das Tormentas.

No início, quem observava de fora, nunca apostaria no sucesso. Mas o Hélder sentia-se naquela que se tornara a sua casa: O desconforto da situação.

Por isso mesmo, devagarinho, dia após dia, noite após noite ele lá a foi aumentando a diminuta baliza.

Não a aumentou mais depressa, porque infelizmente nada mais lhe cabia nas 24H que demora o dia a passar.

Entre as aulas da universidade, as aulas para aprender a dominar o estrangeiro, o not-so-part-time, o estudo à noite e tudo o resto que se faz nos entretantos, simplesmente não havia como fazê-lo mais depressa.

Como dizem lá na terra do Hélder: devagar se vai ao longe.

E o Hélder foi longe.

Tão longe, que ele já não é o filho da porteira.

Tão longe, que a porteira, também já não é a porteira – É a mãe do Hélder.

Mas afinal, quem é o Hélder?

O Hélder é cada um de nós. Aliás, é aquilo que cada um de nós poderia ser.

O Hélder é aquilo que cada um de nós poderá ser.

O Hélder é o resultado de não ignorar o despertador pela manhã, de não atirar a toalha ao chão no primeiro round, de não ficar no conforto da rotina, de não seguir o caminho mais familiar, de não acobardar-se com desculpas ao invés de criar soluções, de não culpar o inevitável, de não tentar justificar o injustificável, de não olhar para a galinha da vizinha, de não choramingar, refilar, culpabilizar, conformar-se e desistir.

Todos nós estamos a tempo de ser o Hélder.

De momento, o nosso país precisa do Hélder e mais que o nosso país, nós próprios precisamos do nosso Hélder.

Portanto, ‘bora lá. Vamos tirar a palavra desculpa do nosso dicionário e rematar às balizas minguantes.

Iremos certamente atirar ao lado, por cima, ao redes, à trave, ao poste, para à bancada, mas quando marcarmos, vai ser um golo com uma grande “nota artística”.

 

(NOTA: Confesso que este último parágrafo era totalmente desnecessário, mas queria terminar este texto com uma citação do grande Jorge Jesus. Peço desculpa a todos.)

  • Imagem: Armando Gomes
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  • O Armando é de Lisboa.

    Nasceu em 1983. Cedo tomou o gosto às colinas e se apaixonou pela cidade dos eléctricos e das calçadas de pedra. Trocou de sonhos até perceber que gostava mesmo era de sonhar e começou a fazê-lo com os pés assentes no chão.

    Gosta de mensagem, escrita, desenhada, transportada ao imaginário dos que a quiserem receber. Começou a pintar em 1998, e foi descobrindo ruas e tintas em tempo comum. Envolveu-se com a cidade e deixou o graffiti ser influência maior.

    Tirou muitas fotografias, e guardou-as a todas como histórias que fizeram crescer.

    Hoje é Pai, designer e ilustrador. Filma e tenta levar o que vê a todos.

    Colecciona imagens, livros, frases, fontes, letras, músicas, marcadores, brinquedos e ténis.

    Pede sempre uma caneta, e nunca deixa uma folha em branco.

  • Palavras: Nuno Melo Cristino
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  • O Nuno nunca quis um trabalho, sempre quis um emprego.

    Por isso empregou-se num bar, na Bica.

    Certo dia, esse tal Nuno, ouviu a seguinte frase em estrangeiro: “Never mix business with pleasure.”

    Nesse dia, o tal Nuno, mudou a sua filosofia de vida, mas não se converteu ao Budismo, tornou-se vegetariano, ou começou a fazer yoga. O Nuno despediu-se.

    Mas, nem tudo eram mudanças na sua filosofia. Ele continuava a querer um emprego e não um trabalho.

    Foi então para a Excentric. Seguiu-se a EuroRSCG 4D, a Fullsix, a DraftFCB Hamburgo, a Ogilvy & Mather Düsseldorf e desde o início de 2015 ou Zweitausendfünfzehn (como dizem lá no estrangeiro) a fischerAppelt.